Partindo dessa minha crença, prentendo, aqui, fazer algumas considerações (baseadas em estudos acadêmicos de outros) sobre a pertinência ou impertinência da edição nos textos que serão apresentados pelos grupos culturais que participarão da Gincana Cultural Contando Memórias, proposta pelo Centro de Convergência de Novas Mídias, financiada pelo ProExt Cultura.
Sempre ouvimos, por aqui, a palavra narrativa. Vários são os exemplos, o mais comum é a “narrativa urbana”. Mas, afinal, o que poderíamos chamar de narrativa? Partindo do princípio de que narrar é contar algo, podemos dizer que o homem sempre teve o desejo e a necessidade de contar histórias.
Tanto nos folhetinhs quanto nas paredes de pedra de Altamira existem fatos que o narrador quis deixar registrados para a posteridade. Assim, num gesto feito com o corpo, numa fotografia familiar antiga, na letra de uma música, numa crônica, ou numa simples piada, lá estão elementos da história e a tentativa de recriar a realidade.
Uma das formas de narrar é a linguagem escrita. E é sobre esta forma que prentendo me debruçar nas linhas que se seguem. Muitos pensam a gramática normativa da lingua portuguesa como uma corda sobre a qual você TEM que se equilibrar. Qualquer falta de cuidado seu pode fazer balançar a corda. E quanto mais esta corda balança, mais evidente fica o seu desequilíbrio até que, num dado momento, a possível queda se dá. Trazendo esta metáfora para o assunto em questão, podemos dizer que quanto mais esta corda balança ou quanto mais quedas dela vc sofrer, mais inculto, sem instruição e vulgar você poderá ser classificado.
Esse ponto de vista é excludente e preconceituoso. Um exemplo claro disso pode ser observado no texto de nossa Constituição Federal que, mesmo assim, diz que todas as pessoas são iguais perante a lei. Mas esta lei é escrita em uma linguagem que a maioria da população não domina.
Como se já não bastasse os sem terra e os sem teto, por exemplo, esta visão de linguagem escrita escrava da gramatica normativa nos apresenta mais um tipo de brasileiro: o sem língua. Um cidadão não fala ou escreve de forma considerada inculta simplesmente por capricho. Ele não cai da corda bamba acima mencionada só pelo prazer da queda proporcionado pelo aumento dos níveis de adrenalina no sangue ou por vontade de não seguir os padrões. Não existe a o pensamento de que hoje acordei de mau-humor e vou infringir tudo aquilo que consideram a norma culta da lingua portuguesa. De acordo com Marcos Bagno, professor da Universidade de Brasília, conhecido pela sua luta contra a discriminação social por meio da linguagem, não podemos menosprezar quem foge desse rigoroso padrão normativo de linguagem escrita estabelecido. Não devemos transformar este acontecimento em contracultura, na medida em que o Brasil, até mesmo pelo seu tamanho continental, não apresenta apenas uma única cultura, uma única lingua e nem mesmo uma homogeneidade linguística.
Bagno acredita que “o mais leve a se fazer sobre os muitos que não falam ou se expressam como os poucos, seria tornar este fato uma subcultura ou uma das duas culturas lingüísticas brasileiras imperantes: a forma “culta” gramatical e a forma “culta” popular”. Nada melhor, perante todo o quadro apresentado, que desenvolvamos a capacidade de sermos bilingues dentro da nossa própria língua. Creio que isso seja uma das atitudes, dentro de um conjunto maior, dos que buscam construir uma sociedade verdadeiramente democrática, guiada pelo respeito às diferenças e pelo respeito e reconhecimento (lembrando a teoria de Taylor) aos diferentes níveis e formas de acesso aos bens culturais tidos como de prestígio.
Por fim, fecho com a seguinte passagem de Heidegger e Gadamer, presente no texto intutulado Cultura e Linguagem, de Miguel Reale, ex Reitor da USP, presidente do Instituto Brasileiro de Filosofia: “a linguagem é o solo da cultura, entendida esta, não apenas como a capacidade de participar de um número cada vez maior de valores intelectuais ou artísticos, mas antropologicamente, como acervo de tudo aquilo que a espécie humana veio acumulando ao longo de sua experiência histórica. Daí poder-se dizer que o ser do homem é o seu dever-ser consubstanciado na linguagem que o tornou capaz de realizar-se como pode e deve fazê-lo. Parece-me essencial essa dupla compreensão do ser humano em seu dever ser através da linguagem”.
Para fins de esclarecimento geral, reafirmo que esta minha forma de pensar se aplica ao caso da gincana, devido a toda a ideologia apresentada pelo projeto. Se eu adotasse outra postura, neste caso, sentiria que eu estaria indo contra toda a proposta do projeto. Esta pensação foi apenas uma provocação para que possamos estudar, pensar e discutir qual será a melhor forma de lidarmos com este assunto que julgo ser tão importante e pertinente às linhas teóricas abordadas pelo CCNM.
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*Sem maiores pretensões e afirmando meu respeito às diversas opiniões.
ontem eu também fiquei com essa discussão na cabeça, pensando justamente em sugerir que fizéssemos uma pesquisa pelo Marcos Bagno, que trata de forma ampla essa questão no "Preconceito Linguístico". Concordo muito com ele e com os pontos que vc expôs, Rennan, mas é questão também de pensarmos até que ponto o pensamento de Bagno é difundido e aceito na sociedade - me refiro, principalmente, à sociedade receptora dos produtos finais que serão gerados pela gingana. Não acho que seja o caso de passar por cima de nossas convicções pelas convicções alheias; acredito em pontos de articulação entre um extremo e outro. Nós sabemos que os desvios da norma padrão advém da cultura - e de tudo que o termo abarca, desde o que é rico até o que é carente - das pessoas com quem estamos lidando. Mas os leitores destes livros saberão disso, e serão capazes de entender estas manifestações antes de julgá-las?
ResponderExcluirHá um limite entre apreciar uma cultura e ser conivente com as carências da própria. Se estamos na posição de "elite intelectual", como as estatísticas nos colocam, talvez seja a questão de pensarmos, também, as situações sociais que proporcionam tais desvios, tal falta de acesso ao português padrão.
de qualquer forma acho justíssima, corretíssima, riquíssima (e outros íssimas positivos) a sua colocação/provocação. torço por uma boa síntese! abraços, Lara.
Não poderia dizer nada que já não tenha sido dito pela Lara. Concondo plenamente. Essa distância entre cultura própria e falta de acesso ao ensino deve ser levada em conta. Talvez faça sim parte da construção da identidade, mas não é algo que nasce deles, nasce de um problema estrutural, político e econômico, contra o qual a população tenta lutar sem, contudo, conquistar alguma vitória.
ResponderExcluirO buraco parece ser mais embaixo, mesmo pensando que uma sociedade livre de preconceitos no que toca a própria linguagem seja o caminho para conquistas ainda maiores.
Bom trabalho de pesquisa Rennan!
ResponderExcluirGostaria de deixar minhas considerações sobre o conceito de narrativa, tendo em vista que, o lugar que falo, é o da "Comunicação Social", e não o do campo literário.
Para mim narrar é senão comunicar, e é através das narrativas que os sujeitos procuram compreender e se impor no mundo como um agente ativo na dinâmica comunicacional. É através da ação, dos embates e tencionamentos, que no espaço cotidiano se torna possível a construção da sociabilidade, das relações, dos laços, dos saberes e dos próprios sujeitos. A narrativa é uma forma pela qual pode ser manifesta, as experiências, as práticas ordinárias, o social, o multiculturalismo, as simbologias vivas e silenciosas.
Ao longo da história, o desenvolvimento da mídia e o surgimento das novas tecnologias da comunicação e informação (TCIs), de certa forma, influenciaram a maneira com que o homem percebe e constrói o mundo a sua volta. A inauguração de novos dispositivos, gêneros e tecnologias que embarcam os mais variados entrecruzamentos de imagens e narrativas, em todas as épocas, evocaram uma nova postura do indivíduo para inéditas possibilidades de intercâmbios sociais e simbólicos. Os produtos midiáticos e seus aparatos tecnológicos não apenas constroem enunciados e representações, mas também uma série tensões que entram em constante choque com os saberes das instâncias interlocutoras, provocando por vezes novos posicionamentos, atualizações, reivindicações e múltiplos quadros interpretativos, passando a ser observados como “chaves de leituras” do mundo.
Portanto, narrar é mais do que "contar uma história". Assim como pensamos a Comunicação, não podemos separar drasticamente "quem narra" e "quem escuta". A narrativa é dinâmica e participamos ativamente da ação textual. Não obstante,a todo momento, articulamos com demais interlocutores, diversos textos, contextos, discursos, posturas, gestos e intonações. Sendo assim, uma história comporta várias narrativas e simbologias que se equacionam no quadro textual, dando pistas sobre a pluralidade das falas sociais, das ideologias, das relações de poder e das realidades cotidianas.
Como diria nosso querido Jack, vamos por partes... rs
ResponderExcluirAvaliando como positivos todos os pontos até aqui marcados, gostaria de problematizar quatro deles:
1) Creio que teorias que visam a desmarginalização de detarminadas coisas nem sempre são difundidas e aceitas na sociedade. Cabe à eduação o papel de promover uma reformulação nessa mentalidade existente mencionada pela Lara. O que é novo, sempre causa um certo estranhamento, mas depois que entra para a esfera do nosso conhecimento, vai ficando familiar. Sem os tensionamentos, as mulheres, por exemplo, não teriam conseguido os direitos pelos quais tanto lutaram e a visão da sociedade sobre elas ainda estaria arcaica. Veja o exemplo famoso da Patricia Galvão, nossa Pagu. Ultrajada em sua época e símbolo para muitas mulheres, hoje.
2) Não creio que exista carências dentro de uma determinada cultura, já que não acredito na valoração cultural. Assim, penso que reconhecer está longe de ser conivente com qualquer fato que possa ser entendido como "carência". Hoje, mais ainda do que antes, existe a demanda de reconhecimento simbólico na comunidade de falantes/escreventes. Assim, acho justo, nessa parte, reproduzir o seguinte trecho:
ResponderExcluirO jogo político se amplia – luta pelo direito de jogar o jogo e a disputa de recursos no
próprio jogo. Reconhecimento e recompensa fazem parte, assim, de uma relação multideterminada,
até porquê, é somente pela possibilidade de disputar que a consciência da particularidade (ou
identidade) do grupo se forma e a organização se dá. Por outro lado, a aceitação de que
divergências, diferenças e interesses precisam da mediação do espaço público (estatal ou não) amplia o escopo da consciência na medida em que o grupo só se realiza na comunidade política.
Também reforça essa síntese do público a partir do particular a legitimação da esfera discursiva
onde, na mesma linha teórica de Habermas e Hannah Arendt, ao estabelecer o diálogo (do dia +
logos como alteridade, troca de razões ou debate) o singular se depara com o plural, estabelecendo a
igualdade discursiva e o reconhecimento tanto do outro como da esfera mediática do nós.*
3) Acho que nem a falta de acesso ao ensino e nem a facilidade de acesso ao ensino podem ser vistas tão simente como algo intrísceco aos grupos culturais diversos. Temos que, antes disso, observar as necessidades dos grupos envolvidos. Talvez o que um grupo desses espera do governo é a criação de uma quadra de escola de samba e não a criação de um telecentro, por exemplo.
ResponderExcluir4) Concordo com todos os pontos levantados pelo Marcos a respeito do conceito de narrativa, narrador, tensões, local de fala e local de escuta, e da problematização acerca da autoria. Entretanto, não consigo ver as narrativas do campo da comunicação descoladas das do campo literário. O discurso jornalistico, por exemplo, nada mais é do que um estilo literário, cheio de ferramentas textuais como personagens, enredo, cenário, ambientalização, foco narrativo, tempo, espaço, narrador, dentre outras. O discurso publicitário também, na medida em que se vale de figuras de linguagem, narrador, tempo, espaço, intentio operis, foco narrativo, dentre outras também.
No mais, estou agradando dessa nossa conversa. Acho que todos os argumentos aqui presentes serão de extrema valia para os que serão responsáveis pelas decisões referentes a esta questao dentro da gincana.
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* A Teoria do Reconhecimento e o novo desenho institucional brasileiro – uma leitura sob a
perspectiva da questão de gênero
Vera Alves Cepêda, Flávia Mello Magrini (UFSCar)