sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Agenda de Feriado

Sexta-feira, véspera de feriado, e a cidade pipocando em acontecimentos pra lá de bacanas. Alguns deles, raros e, por que não dizer, especialíssimos?! Sendo assim, não poderiam passar desapercebidos em um parlatorium. Não mesmo.


  • O SONHO E A VIDA DE MARC CHAGALL

A maior reunião de trabalhos do pintor já realizada no Brasil, a exposição “O Sonho e a Vida de Marc Chagal” conta com mais de 300 obras. Os trabalhos de Chagall, sempre inundados de cores e fortemente marcados pelo fantástico, podem ser vistos na Casa Fiat de Cultura até o dia 4 de outubro.

A exposição, completíssima, está dividida especialmente a partir de fases artísticas do pintor. O visitante ainda poderá ter noções sobre a relação entre Chagall e o Brasil, conhecendo as obras de outros artistas fortemente influenciados pelo mestre, que se radicou na França e marcou época como um dos mais brilhantes pintores do século XX.

Para o final-de-semana prolongado, tudo a partir das 14h.


  • RODIN, DO ATELIÊ AO MUSEU

Ainda na Casa Fiat de Cultura – que, apesar de bem distante, possui sistema de transporte gratuito que parte da Praça da Liberdade –, a exposição traz vinte e duas esculturas do gênio parisiense, além de fotografias que registram o trabalho e o processo de criação de Rodin, que dispensa maiores apresentações.

A maioria das obras, tanto fotografias quanto esculturas, jamais saíram da França, o que já é motivo suficiente pra sair da frente do computador. “De quebra”, ainda dá pra ver Chagall e voltar meio extasiado pra casa.

Todos os detalhes das exposições de Chagal e Rodin, aqui.


  • VIK

Na Fundação Inimá de Paula – na Rua da Bahia e bem perto de você – acontece a exposição das fotografias de Vik Muniz. Certamente um dos maiores artistas nacionais da atualidade, Vik é radicado nos EUA e raramente têm seu trabalho exposto com tanto destaque em solos brasileiros. Pra quem não conhece, Vik trabalha com (re)contruções de imagens a partir de fragmentos de coisas, porções granuladas ou mesmo dejetos.

A exposição está fantástica. Apesar de poucos guias e pouca informação ao longo do trajeto, um vídeo, exibido em uma espécie de sala de cinema, esclarece a maioria das dúvidas e curiosidades, bem como os micro-vídeos que se apresentam entre uma obra e outra, mostrando o processo de montagem da figura fotografada.

Todos os detalhes, aqui!


  • INDIE FESTIVAL

A Mostra Mundial de Cinema Indie teve início nesse dia 3 de setembro e vai até dia o 10. Já em sua nona edição, a mostra acontece em seis cinemas da capital mineira. Sempre com um público bem interessante e diversificado, é uma ótima oportunidade para conhecer filmes que não chegaram e nem chegarão aos cinemas mais convencionais.

Posso dizer que já vi filmes fantásticos em outras versões do festival.

A programação está disponível aqui e em um catálogo que pode ser adquirido em qualquer cinema parceiro da mostra - e que, normalmente, é lindo e vem com as sinopses de todos os filmes.

Vale lembrar que nada é pago. Os ingressos são distribuídos cerca de meia hora antes de cada filme, o que faz lembrar também da necessidade de se chegar, pelo menos, 50 minutos antes de cada exibição.

Mias informações, aqui!


  • SAVASSI FESTIVAL 2009

Pra quem gosta mais da noite, do Jazz e Lounge. O festival começou nessa quinta feira nos cafés e bares mais cotados da Savassi. Com programação bem diversificada, a coisa toda acontece em ambientes fechados e sujeitos a couvert, o que só muda na segunda-feira. Dia 7 é o dia em que a rua fecha e pessoal se joga na Antônio de Albuquerque. Pra fechar a noite de segunda, ainda tem festa na Velvet Club, a partir das 22h, mediante o pagamento de 10 reais.

A programação é bem legal e o público é bem Café com Letras, com uma ou outra variação mais brusca. Vale a pena por ser diferente, por ter muita gente e pela música, que é boa sim.


  • 7° ENCONTRO NACIONAL UNIVERSITÁRIO DE DIVERSIDADE SEXUAL

Acontece em várias das dependências da UFMG, no Campus Pampulha, do dia 3 à 7 de setembro. Além de palestras e discussões, o encontro contará com quatro festas: na quinta, sexta, sábado e domingo.

Para quem gosta de jogos e piscina, domingo, no CEU, acontecerá uma série de jogos temáticos a partir de 12h.

Mais detalhes no site do ENUDS.


Bom... Ficar em casa no feriado, só se for por opção.





terça-feira, 25 de agosto de 2009

Curso Superior

Marcelino Freire


O meu medo é entrar na faculdade e tirar zero eu que nunca fui bom de matemática fraco no inglês eu que nunca gostei de química geografia e português o que é que eu faço agora hein mãe não sei.

O meu medo é o preconceito e o professor ficar me perguntando o tempo inteiro por que eu não passei por que eu não passei por que eu não passei por que fiquei olhando aquela loira gostosa o que é que eu faço se ela me der bola hein mãe não sei.

O meu medo é a loira gostosa ficar grávida e eu não sei como a senhora vai receber a loira gostosa lá em casa se a senhora disse um dia que eu devia olhar bem para a minha cara antes de chegar aqui com uma namorada hein mãe não sei.

O meu medo também é do pai da loira gostosa e da mãe da loira gostosa e do irmão da loira gostosa no dia em que a loira gostosa me apresentar para a família como o homem da sua vida será que é verdade será que isso é felicidade hein mãe não sei.

O meu medo é a situação piorar e eu não conseguir arranjar emprego nem de faxineiro nem de porteiro nem de ajudante de pedreiro e o pessoal dizer que o governo já fez o que pôde já pôde o que fez já deu a sua cota de participação hein mãe não sei.

O meu medo é que mesmo com diploma debaixo do braço andando por ai desiludido e desempregado o policial me olhe de cara feia e eu acabe fazendo uma burrice sei lá uma besteira será que vou ter direito a uma cela especial hein mãe não sei.

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Aproveitando a onda dos contos, acho as estratégias textuais empregadas nesse conto muito interessante.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Um fake-post

Pra começar, esse é um não-momento. O momento exato seria aquele que se seguiria ao seminário sobre Jornalismo Literário. Era sobre o seminário que eu trataria hoje. E o seminário não aconteceu.
Mas é claro que sempre há um "plano B"... Que é pra gente não precisar de tirar alguma coisa da cartola. Meu plano B, devo admitir, é também um plano falido.

O post é fake e é quase um não-post justamente por começar com desculpas e terminar sem o texto.

Um dos vários motivos da falência do plano B é a memória. Digo "memória" como tema. O mesmo do post da Lara.

Vou deixar então a indicação de um conto. Um texto lindo, que é pra ser leve e é pra ser na sexta.

O conto - esse aqui - é do Caio Fernando Abreu. Chama-se "Sem Ana, Blues" e se relaciona com a memória ao tratar do esforço para se esquecer. Da dor que, às vezes, é o lembrar.

E é esse o tema do texto de Caio. E há ritmo, há um amor perdido e há, ao final, a certeza do passado ser pra sempre. Ele nos acompanha na memória e, só por ser lembrado, já passa a ser presente.


quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Funes, o Memorioso

"... Este, não o esqueçamos, era quase incapaz de idéias gerais, platônicas. Não apenas lhe custava compreender que o símbolo genérico cão abarcava tantos indivíduos díspares de diversos tamanhos e diversa forma; perturbava-lhe que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e quatro (visto de frente). Sua própria face no espelho, suas próprias mãos, surpreendiam-no cada vez. Comenta Swift que o imperador de Lilliput discernia o movimento do ponteiro dos minutos; Funes discernia continuamente os avanços tranqüilos da corrupção, das cáries, da fatiga. Notava os progressos da morte, da umidade. Era o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intolerantemente preciso. Babilônia, Londres e Nova York têm preenchido com feroz esplendor a imaginação dos homens; ninguém, em suas torres populosas ou em suas avenidas urgentes, sentira o calor e a pressão de uma realidade tão infatigável como a que dia e noite convergia sobre o infeliz Ireneo, em seu pobre subúrbio sulamericano. Era-llhe muito difícil dormir. Dormir é distrair-se do mundo; Funes, de costas na cama, na sombra, figurava a si mesmo cada rachadura e cada moldura das casas distintas que o redoavam. (Repito que o menos importante das suas lembranças era mais minucioso e mais vivo que nossa percepção de um gozo físico ou de um tormento físico). Em direção ao leste, em um trecho não pavimentado, havia casas novas, desconhecidas. Funes as imaginava negras, compactas, feitas de treva homogênea; nessa direção virava o rosto para dormir. Também era seu costume imaginar-se no fundo do rio, mexido e anulado pela corrente."

Funes, o Memorioso. De Jorge Luis Borges


Para hoje, escolhi postar este belo conto de Jorge Luis Borges, devido, entre as tantas qualidades estilísticas deste texto, à forma através da qual o tema da memória é aqui tratado.
Se no maior das vezes nos deixamos levar pela idéia da memória como algo construtor de nossa identidade - pois é através da repetição das atitudes e da lembrança destas que diariamente nos tornamos quem nós somos - no conto de Borges nos deparamos com uma memória que, por ser tanta, acaba por tomar a identidade de um sujeito, fazendo com que este não se reconheça mais e não reconheça mais aquilo que o cerca. A cada vez que observa um objeto, é como se Funes o observasse pela primeira vez, pois capta, naquele instante singular, detalhes que ninguém mais captaria. Assim, é anulado em sua capacidade de reconhecer e, conta-nos o autor, de conceber uma idéia concreta, de pensar.

Como temos lidado com o tema da memória em algumas de nossas atividades e gincanas no CCNM, pensei talvez ser este conto um contraponto interessante em relação à concepção de memória com a qual trabalhamos. É preciso esquecer para lembrar, nos mostra Borges por trás do tom às vezes fantasioso de seu conto. É preciso ter passado, mas também é preciso ter presente, para que a Mnemosyne não engula nossa identidade.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Ausências na comunicação social e no jornalismo: A lógica da rua

Li esse texto do Fernando Resende essa semana e achei interessante pensarmos sobre:


Ausências na comunicação social e no jornalismo:

A lógica da rua1


O campo dos media configura-se, na sociedade que vive uma cultura pós-industrializada, como um dos mais importantes campos sociais. Ao pensarmos na constituição de um espaço público determinado pelo imbricamento de redes de experiências, tanto sociais como culturais e/ou de outras ordens, reconhecemos a comunicação social, e portanto os seus saberes e as suas práticas formatadas pelos aparatos tecnológicos, como constitutiva de um campo que muito contribui para que as relações sociais, na sociedade contemporânea, sejam, ao mesmo tempo, tecidas e compreendidas.
Na dimensão de um contemporâneo em que as sociabilidades se configuram por vias mediatizadas, a noção de espaço público, como lugar simbólico em que se tecem e se estabelecem as relações sociais, ganha relevos significativos. Tratam-se de fatores que, principalmente por alterarem as relações que as pessoas estabelecem com as noções de espaço e de tempo, reconfiguram os papéis e as pertinências dos vários campos que constituem a sociedade. As relações, que de diretas passam a ser sobrepostas, e nunca substituídas, pelas de circulação mediática, se conformam em um espaço cuja ordem se estabelece a partir de uma correlação de forças. No âmbito do espaço público conflituoso,2 são os vários campos e organizações sociais coexistentes, através dos quais se articulam os saberes e as práticas cotidianas, que se reorganizam, constantemente. Nesse sentido, o avanço tecnológico sofrido pela sociedade que tem se configurado nos últimos 50 anos é um dado preponderante.
É o campo dos media, particularmente em suas perspectivas práticas, um dos grandes responsáveis pelas alterações a que nos aludimos. Principalmente a partir da chegada da televisão, o ato de estar no mundo ganha novas conformações. Não cabe aqui uma apologia à imagem e muito menos uma referência à sua possível preponderância no mundo atual, mas constatar o fato de que o advento da mídia eletrônica muito contribuiu para o encurtamento e o remodelamento dos espaços, das distâncias e dos tempos, cumprindo assim um importante papel tanto na reconfiguração do espaço público contemporâneo como na atenção que se volta para a importância da existência dos meios na sociedade. Primeiro, porque, no espaço público a que nos referimos, outros campos sociais, sejam de ordens políticas, jurídicas, econômicas ou culturais, passam a ter de se articular, de conviver e correlacionar forças, com o campo através do qual se fala, tanto deles como por eles. Depois, porque foi praticamente a reboque da televisão que todos os outros meios de comunicação, nascidos antes ou após o seu advento, ganharam uma relevância fundamental, fator que traz à tona a importância de todo o campo dos media.
Trata-se de um campo, como também o são os outros, que tanto se faz autônomo como dependente. Sua especificidade, entretanto, reside no fato de que a discursividade e a narratividade, além da tecnologia, sejam elementos nodais na sua própria constituição.3 Em outras palavras, ele instaura, ao mesmo tempo em que conforma e redefine, discursos sobre e para a sociedade; ou seja, ele cria e recria práticas sociais discursivas que tanto desejam falar da sociedade como constituir-se enquanto saber acerca desta mesma sociedade. O paradoxo se estabelece quando percebemos que, paralelamente a este processo, ressalta-se sua relativa dependência de outros campos, já que o discurso que ele cria sobrevive, também e fundamentalmente, da existência de outras instituições sociais de caráter estritamente político, econômico, cultural e/ou de qualquer outra ordem. Ou ainda, trata-se de um campo que tanto precisa dialogar com outros organismos da sociedade como também deles falar. Sendo assim, ele formata a sociedade ao mesmo tempo em que viabiliza leituras acerca da sociedade instituída e formatada por outros campos.
Ademais, junte-se a estes aspectos o fato de que trata-se de narrar experiências e modos de vida, calcados em subjetividades que estão insistentemente cravadas na objetividade demandada pela necessária lida com o cotidiano. Ou seja, eles intereferem no status quo e recriam modos de vida, porque lêem e provocam releituras de experiências subjetivas e objetivas e, vale dizer, de forma às vezes tão imperativa que tornam-se o lugar de onde as pessoas retiram o que sabem e o que se dispõem a compreender acerca do cotidiano e da vida. Estes talvez sejam alguns dos fatores mais fundamentais que têm provocado tantos estudos e reflexões acerca da presença da comunicação social na sociedade contemporânea.


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1
Este trabalho foi realizado no âmbito do Programa de Bolsa CES de Curta Duração (Janeiro/2004), no Centro de
Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Portugal, instituição à qual o autor é
profundamente grato.
2
Cf. Miège (1992). O autor trabalha com a noção de conflito entre os diversos atores e campos sociais, como a nova
ordem que rege o espaço público contemporâneo. Para a discussão acerca dos media e do espaço público, o trabalho
de Jürgen Habermas, Mudança estrutural da esfera pública (1986), é de fundamental importância.
3
Ver, nesse sentido, um importante trabalho de Rodrigues (1984). O autor discute a “tríplice componente” que
delimita o campo dos media como instituição social. Outros trabalhos posteriores têm o mérito de discutir as
particularidades a que estas especificidades estão sujeitas, mas o trabalho citado traz a discussão mais geral acerca
do assunto.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Mais sobre linguagem, para se pensar o caso da Gincana Cultural Contando Memórias

Ha algum tempo li O Prazer do texto, de Roland Barthes. Selecionei algumas passagens interessantes e que vão de encontro ao que eu já havia dito no post anterior sobre o mesmo tema. Creio que este é um importante e clássico respaldo teórico que deva ser levado em conta. Abaixo, os trechos:

Página 07

O prazer do texto: qual o simulador de Bacon, ele nunca pode dizer: jamais se desculpar, jamais se explicar. Nunca ele nega nada: "Desviarei meu olhar, será doravante a minha única negação".

Página 11

O texto que o senhor escreve tem que me dar prova de que ele me deseja. Essa prova existe: é a escritura. A escritura é isto: a ciência das fruições da linguagem, seu kama-sutra (desta ciência, só há um tratado: a própria escritura).

Página 12

Daí, talvez, um meio de avaliar as obras da modernidade: seu valor proviria de sua duplicidade. Cumpre entender por isso que elas têm sempre duas margens. A margem subversiva pode parecer privilegiada porque é a da violência; mas não é a violência que impressiona o prazer; a destruição não lhe interessa; o que ele quer é o lugar de uma perda, é a fenda, o corte, a deflação, o fading que se apodera do sujeito no imo da fruição. A cultura remota, portanto, como margem: sob não importa qual forma.

Página 15

Eis um estado muito sutil, quase insustentável, do discurso: a narratividade é desconstruída e a história permanece no entanto legível: nunca as duas margens da fenda foram mais nítidas e mais tênues, nunca o prazer foi melhor oferecido ao leitor - pelo menos se ele gosta das rupturas vigiadas, dos conformismos falsificados e das destruições indiretas. Ademais o êxito pode ser aqui reportado a um autor, junta-se-lhe o prazer do desempenho: a proeza é manter a mimésis da linguagem (a linguagem imitando-se a si propria), fonte de grandes prazeres, de uma maneira tão radicalmente ambígua (ambígua até a raiz) que o texto não tombe jamais sob a boa consciência (e a má fé) da paródia (do risco castrador, do "cômico que faz rir").

Página 23

Na cena do texto não há ribalta: não existe ninguém ativo (o escritor) e ninguém passivo (o leitor); não há um sujeito e um objeto. O texto prescreve as atitudes gramaticais: é o olho indiferenciado de que fala um autor excessivo (Angelus Silesius). "O olho por onde eu vejo Deus é o mesmo olho por onde ele me vê".

Página 40

Alguns querem um texto sem sombra, cortado da "ideologia dominante"; mas é querer um texto sem fecundidade, sem produtividade, um texto estéril. O texto tem a necessidade de sua sombra: essa sombra é um pouco de ideologia, um pouco de representação, um pouco de sujeito: fantasmas, bolsos, rastros, nuvens necessárias; a subversão deve produzir seu próprio claro-escuro.

Página 41

Marcar bem os imaginários da linguagem, a saber: a palavra como unidade singular, mônada mágica; a fala como instrumento ou expressão do pensamento; a escritura como transliteração da fala; a frase como medida lógica, fechada; a própria carência ou a recusa de linguagem como força primária, espontânea, pragmática. O imaginário da ciência (a ciência como imaginário) toma a seu cargo todos esses artefatos: a linguistica enuncia de fato a verdade sobre a linguagem, mas, somente nisto: "que nenhuma ilusão consciente é cometida": ora é a própria definição do inconsciente.
Já é um primeiro trabalho o de restabelecer na ciência da linguagem aquilo que só lhe é atribuído, fortuitamente, desdenhosamente, ou com mais frequência ainda, recusado: a semiologia (a estilística, a retórica, dizia Nietzsche), a prática, a ação ética, o entusiasmo. Um segundo trabalho é o de reencaixar na ciência o que vai contra ela: aqui, o texto. O texto é a linguagem sem o seu imaginário, é o que falta à ciência da linguagem para que seja manifestada sua importância geral (e não sua particularidade tecnocrática). Tudo o que é apenas tolerado ou terminantemente recusado pela linguística (como ciência canônica, positivista), a significância, a fruição, é presisamente isso que afasta o texto dos imaginários da linguagem.


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BARTHES, R, O prazer do texto. Trad. J. Guinsburg. 3ª ed. São Paulo: Editora Perspectiva. 2002.



segunda-feira, 27 de julho de 2009

o conceito de livro e a Gincana Cultural Contando Memórias.

Pensando sobre temas que dizem respeito à "Gincana Cultural Contando Memórias", por muitas vezes chegamos a nos deparar com idéias que, apesar de sinalizarem para uma solução, acabam por parecer, em um primeiro momento, insolúveis. Contudo, por estarmos, creio eu, em um momento de criação e discussão acerca de linguagem, metodologia, cultura, entre tantos outros aspectos, parece ser importante que tenhamos fôlego para ao menos seguirmos estas idéias, e por fim ver onde elas desembocam.

Esta introdução, que talvez se pareça mais com um pedido de desculpa do que com uma abertura de um texto, quer na verdade chamar para pensarmos em uma questão específica acerca da Gincana Contando Memórias. Sabemos que boa parte dos grupos inscritos neste evento não possui como primeira forma de expressão cultural a linguagem, o que não significa, de maneira alguma, que suas expressões sejam menos ricas ou menos culturalmente elaboradas. Temos, também, conhecimento de que o produto final desta gincana seria a elaboração de um livro virtual que contenha as histórias que dizem respeito àquele grupo, ou seja, um livro que traga em si a memória de uma determinada comunidade.

O que eu me arriscaria a propôr é que pensemos no conceito de livro de uma forma um pouco mais abrangente, talvez próxima do conceito que se conhece como livro-objeto. Talvez, se aceitássemos o livro como algo que abriga mais do que uma história manifestada por meio da linguagem, como algo que pode trazer em si experiências visuais, experiências sonoras, experiências estéticas, que podem ser potencializadas pelo fato de tratar-se de um livro virtual, talvez, então, as expressões culturais de tais grupos possam ser enfatizadas de forma mais próxima do real, e a transmissão destas culturas e destas memórias se dê mais satisfatoriamente.

Reitero, porém, o que disse no início deste texto: idéias que se pretendiam soluções podem se tornar problemas quando confrontadas com o real. Porém, acho que existe valor em seguirmos até certo ponto algumas idéias, pois o meio que elas percorrem pode, algumas vezes, ser mais rico e proveitoso que o fim ao qual elas nos conduzem.