sexta-feira, 31 de julho de 2009
Mais sobre linguagem, para se pensar o caso da Gincana Cultural Contando Memórias
Página 07
O prazer do texto: qual o simulador de Bacon, ele nunca pode dizer: jamais se desculpar, jamais se explicar. Nunca ele nega nada: "Desviarei meu olhar, será doravante a minha única negação".
Página 11
O texto que o senhor escreve tem que me dar prova de que ele me deseja. Essa prova existe: é a escritura. A escritura é isto: a ciência das fruições da linguagem, seu kama-sutra (desta ciência, só há um tratado: a própria escritura).
Página 12
Daí, talvez, um meio de avaliar as obras da modernidade: seu valor proviria de sua duplicidade. Cumpre entender por isso que elas têm sempre duas margens. A margem subversiva pode parecer privilegiada porque é a da violência; mas não é a violência que impressiona o prazer; a destruição não lhe interessa; o que ele quer é o lugar de uma perda, é a fenda, o corte, a deflação, o fading que se apodera do sujeito no imo da fruição. A cultura remota, portanto, como margem: sob não importa qual forma.
Página 15
Eis um estado muito sutil, quase insustentável, do discurso: a narratividade é desconstruída e a história permanece no entanto legível: nunca as duas margens da fenda foram mais nítidas e mais tênues, nunca o prazer foi melhor oferecido ao leitor - pelo menos se ele gosta das rupturas vigiadas, dos conformismos falsificados e das destruições indiretas. Ademais o êxito pode ser aqui reportado a um autor, junta-se-lhe o prazer do desempenho: a proeza é manter a mimésis da linguagem (a linguagem imitando-se a si propria), fonte de grandes prazeres, de uma maneira tão radicalmente ambígua (ambígua até a raiz) que o texto não tombe jamais sob a boa consciência (e a má fé) da paródia (do risco castrador, do "cômico que faz rir").
Página 23
Na cena do texto não há ribalta: não existe ninguém ativo (o escritor) e ninguém passivo (o leitor); não há um sujeito e um objeto. O texto prescreve as atitudes gramaticais: é o olho indiferenciado de que fala um autor excessivo (Angelus Silesius). "O olho por onde eu vejo Deus é o mesmo olho por onde ele me vê".
Página 40
Alguns querem um texto sem sombra, cortado da "ideologia dominante"; mas é querer um texto sem fecundidade, sem produtividade, um texto estéril. O texto tem a necessidade de sua sombra: essa sombra é um pouco de ideologia, um pouco de representação, um pouco de sujeito: fantasmas, bolsos, rastros, nuvens necessárias; a subversão deve produzir seu próprio claro-escuro.
Página 41
Marcar bem os imaginários da linguagem, a saber: a palavra como unidade singular, mônada mágica; a fala como instrumento ou expressão do pensamento; a escritura como transliteração da fala; a frase como medida lógica, fechada; a própria carência ou a recusa de linguagem como força primária, espontânea, pragmática. O imaginário da ciência (a ciência como imaginário) toma a seu cargo todos esses artefatos: a linguistica enuncia de fato a verdade sobre a linguagem, mas, somente nisto: "que nenhuma ilusão consciente é cometida": ora é a própria definição do inconsciente.
Já é um primeiro trabalho o de restabelecer na ciência da linguagem aquilo que só lhe é atribuído, fortuitamente, desdenhosamente, ou com mais frequência ainda, recusado: a semiologia (a estilística, a retórica, dizia Nietzsche), a prática, a ação ética, o entusiasmo. Um segundo trabalho é o de reencaixar na ciência o que vai contra ela: aqui, o texto. O texto é a linguagem sem o seu imaginário, é o que falta à ciência da linguagem para que seja manifestada sua importância geral (e não sua particularidade tecnocrática). Tudo o que é apenas tolerado ou terminantemente recusado pela linguística (como ciência canônica, positivista), a significância, a fruição, é presisamente isso que afasta o texto dos imaginários da linguagem.
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BARTHES, R, O prazer do texto. Trad. J. Guinsburg. 3ª ed. São Paulo: Editora Perspectiva. 2002.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
o conceito de livro e a Gincana Cultural Contando Memórias.
Esta introdução, que talvez se pareça mais com um pedido de desculpa do que com uma abertura de um texto, quer na verdade chamar para pensarmos em uma questão específica acerca da Gincana Contando Memórias. Sabemos que boa parte dos grupos inscritos neste evento não possui como primeira forma de expressão cultural a linguagem, o que não significa, de maneira alguma, que suas expressões sejam menos ricas ou menos culturalmente elaboradas. Temos, também, conhecimento de que o produto final desta gincana seria a elaboração de um livro virtual que contenha as histórias que dizem respeito àquele grupo, ou seja, um livro que traga em si a memória de uma determinada comunidade.
O que eu me arriscaria a propôr é que pensemos no conceito de livro de uma forma um pouco mais abrangente, talvez próxima do conceito que se conhece como livro-objeto. Talvez, se aceitássemos o livro como algo que abriga mais do que uma história manifestada por meio da linguagem, como algo que pode trazer em si experiências visuais, experiências sonoras, experiências estéticas, que podem ser potencializadas pelo fato de tratar-se de um livro virtual, talvez, então, as expressões culturais de tais grupos possam ser enfatizadas de forma mais próxima do real, e a transmissão destas culturas e destas memórias se dê mais satisfatoriamente.
Reitero, porém, o que disse no início deste texto: idéias que se pretendiam soluções podem se tornar problemas quando confrontadas com o real. Porém, acho que existe valor em seguirmos até certo ponto algumas idéias, pois o meio que elas percorrem pode, algumas vezes, ser mais rico e proveitoso que o fim ao qual elas nos conduzem.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Impressões de dentro da pedra
Preciso confessar que carregava comigo uma série de pré-conceitos (e separo assim pra ficar menos pejorativo ou diminuir o peso da palavra... não que eu mereça).
Esses conceitos prévios dizem respeito a tudo. Aliás, queriam dizer. Foram construídos a partir de um ponto de vista que emerge de um senso comum, alienado, impetuoso. Foram todos destruídos pelo simples contato com a realidade, que me pareceu bem melhor daquilo que eu imaginava.
Estou tratando aqui da Fundação Xuxa Meneghel, do ambiente e comunidade de Pedra de Guaratiba, das crianças auxiliadas pela Fundação.
É a segunda vez que começo esse texto, tentando não me perder em narrações, a fim de fazer aqui um retrato, mesmo que pálido, acerca das minhas impressões, apenas.
Da Fundação, o que pude notar, além do cuidado com que é mantida a instalação física, foi a segurança que envolve as crianças que a frequentam. Um espaço que se estende a partir de uma alameda comprida e cheia de verde, cheia de sagüis e brinquedos, que revela, mais adiante, o espaço de interação, de aprendizado e de formação.
É notável também o carinho e a atenção dedicada às crianças. Aliás, dedicada, dedicação e compreensão das individualidades pareceram ser palavras de ordem.
Pra falar do lugar, de Pedra de Guaratiba, que só fui conhecer melhor no último dia de visita, é preciso tratar de carências e falta de estrutura. De um lugar que parte de uma via longa, que em seu lado mais habitado amontoam-se barracões, sem reboco, sem isso ou aquilo, que vão até sei-lá-onde, costurados por vielazinhas quase-labirinto. De uma região que chega a um mar sujo e que, na maré cheia, ainda conserva o cheiro da lama defunta que cobre o chão.
Pelo que procurei saber, a violência está sim presente e já faz parte da vida de cada um. Já está tão alí que há quem não a perceba. A ponto das crianças falaram de morte como algo quase natural. De tiroteios no carnaval, de gente que só morre porque “vacilou”, mas que, tirando isso, segundo uma das meninas assistidas pela Fundação, até que é tudo muito tranqüilo.
E realmente, tirando isso ou mais alguma coisa, me pareceu um lugar tranqüilo sim. Pacato, pobre e sem nenhum interesse por parte do governo, mas que ainda assim conserva nas pessoas aquilo de ter esperança e de andar sorrindo.
Das crianças não poderia ter tido melhor impressão. Das mais novinhas às mais jovens, tanto os meninos quanto as meninas, todos muitíssimo educados, carinhosos, bem dispostos.
Não sei dizer das suas carências, das dificuldades ou da casa onde vivem, mas ali na Fundação estavam em casa também. Divertiam-se, contavam histórias e comentavam sobre o show da Ivete Sangalo que iria acontecer no sábado à tarde, em Campo Grande – centro comercial mais próximo. Eram crianças como quaisquer outras que não carregavam, pelo menos aparentemente, o peso de morar num lugar tão deprimido pela falta de oportunidade e de assistência.
Acho ainda que vale dizer do clima agradável dali. Faz um sol bonito e de alguma forma é leve, mesmo que salgado pela baía e pela falta de recursos.
De tudo, sem querer me remeter à alguma coisa de Fernando Sabino, fica a certeza de um trabalho que vale a pena, tanto o nosso, do CCNM, quanto o da fundação-porto-seguro. A falta de intervenção e auxílio governamental é superada pela raça e vontade de fazer uma história melhor, mesmo que a custa de iniciativas privadas, sempre muito bem vindas nesses tempos de dinheiros que escorrem por debaixo de tapetes vermelhos no antigo planalto central.
Obs.: A narração, com impressões a mais e outras a menos, ainda há de ser postada, talvez não aqui. Mas isso é pra depois.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Pensações sobre Linguagem e Cultura no caso da Gincana Cultural Contando Memórias*
Partindo dessa minha crença, prentendo, aqui, fazer algumas considerações (baseadas em estudos acadêmicos de outros) sobre a pertinência ou impertinência da edição nos textos que serão apresentados pelos grupos culturais que participarão da Gincana Cultural Contando Memórias, proposta pelo Centro de Convergência de Novas Mídias, financiada pelo ProExt Cultura.
Sempre ouvimos, por aqui, a palavra narrativa. Vários são os exemplos, o mais comum é a “narrativa urbana”. Mas, afinal, o que poderíamos chamar de narrativa? Partindo do princípio de que narrar é contar algo, podemos dizer que o homem sempre teve o desejo e a necessidade de contar histórias.
Tanto nos folhetinhs quanto nas paredes de pedra de Altamira existem fatos que o narrador quis deixar registrados para a posteridade. Assim, num gesto feito com o corpo, numa fotografia familiar antiga, na letra de uma música, numa crônica, ou numa simples piada, lá estão elementos da história e a tentativa de recriar a realidade.
Uma das formas de narrar é a linguagem escrita. E é sobre esta forma que prentendo me debruçar nas linhas que se seguem. Muitos pensam a gramática normativa da lingua portuguesa como uma corda sobre a qual você TEM que se equilibrar. Qualquer falta de cuidado seu pode fazer balançar a corda. E quanto mais esta corda balança, mais evidente fica o seu desequilíbrio até que, num dado momento, a possível queda se dá. Trazendo esta metáfora para o assunto em questão, podemos dizer que quanto mais esta corda balança ou quanto mais quedas dela vc sofrer, mais inculto, sem instruição e vulgar você poderá ser classificado.
Esse ponto de vista é excludente e preconceituoso. Um exemplo claro disso pode ser observado no texto de nossa Constituição Federal que, mesmo assim, diz que todas as pessoas são iguais perante a lei. Mas esta lei é escrita em uma linguagem que a maioria da população não domina.
Como se já não bastasse os sem terra e os sem teto, por exemplo, esta visão de linguagem escrita escrava da gramatica normativa nos apresenta mais um tipo de brasileiro: o sem língua. Um cidadão não fala ou escreve de forma considerada inculta simplesmente por capricho. Ele não cai da corda bamba acima mencionada só pelo prazer da queda proporcionado pelo aumento dos níveis de adrenalina no sangue ou por vontade de não seguir os padrões. Não existe a o pensamento de que hoje acordei de mau-humor e vou infringir tudo aquilo que consideram a norma culta da lingua portuguesa. De acordo com Marcos Bagno, professor da Universidade de Brasília, conhecido pela sua luta contra a discriminação social por meio da linguagem, não podemos menosprezar quem foge desse rigoroso padrão normativo de linguagem escrita estabelecido. Não devemos transformar este acontecimento em contracultura, na medida em que o Brasil, até mesmo pelo seu tamanho continental, não apresenta apenas uma única cultura, uma única lingua e nem mesmo uma homogeneidade linguística.
Bagno acredita que “o mais leve a se fazer sobre os muitos que não falam ou se expressam como os poucos, seria tornar este fato uma subcultura ou uma das duas culturas lingüísticas brasileiras imperantes: a forma “culta” gramatical e a forma “culta” popular”. Nada melhor, perante todo o quadro apresentado, que desenvolvamos a capacidade de sermos bilingues dentro da nossa própria língua. Creio que isso seja uma das atitudes, dentro de um conjunto maior, dos que buscam construir uma sociedade verdadeiramente democrática, guiada pelo respeito às diferenças e pelo respeito e reconhecimento (lembrando a teoria de Taylor) aos diferentes níveis e formas de acesso aos bens culturais tidos como de prestígio.
Por fim, fecho com a seguinte passagem de Heidegger e Gadamer, presente no texto intutulado Cultura e Linguagem, de Miguel Reale, ex Reitor da USP, presidente do Instituto Brasileiro de Filosofia: “a linguagem é o solo da cultura, entendida esta, não apenas como a capacidade de participar de um número cada vez maior de valores intelectuais ou artísticos, mas antropologicamente, como acervo de tudo aquilo que a espécie humana veio acumulando ao longo de sua experiência histórica. Daí poder-se dizer que o ser do homem é o seu dever-ser consubstanciado na linguagem que o tornou capaz de realizar-se como pode e deve fazê-lo. Parece-me essencial essa dupla compreensão do ser humano em seu dever ser através da linguagem”.
Para fins de esclarecimento geral, reafirmo que esta minha forma de pensar se aplica ao caso da gincana, devido a toda a ideologia apresentada pelo projeto. Se eu adotasse outra postura, neste caso, sentiria que eu estaria indo contra toda a proposta do projeto. Esta pensação foi apenas uma provocação para que possamos estudar, pensar e discutir qual será a melhor forma de lidarmos com este assunto que julgo ser tão importante e pertinente às linhas teóricas abordadas pelo CCNM.
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*Sem maiores pretensões e afirmando meu respeito às diversas opiniões.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Um Blog!
Pra dar início às minhas postagens, que vão começar assim-de-supetão, queria tratar da criação de blogs.
Hoje o Rennan me avisou que teríamos um. Fiquei surpreso e gostei da notícia, imaginando pra quando seria o projeto. Surpresa maior foi descobrir que era pra já! O blog já estava montado, todo bonitinho e pronto pra ser postado, comentado, sujeito a todos os tipos de ações “internáuticas” que possam existir.
Mas como um blog novinho-em-folha surge assim, de repente, num intervalo de uma noite e poucas horas?
Lembro-me de quando eu ainda era quase uma criança e tentei me arriscar na Rede. A partir de um site que nem me lembro o nome, tentava criar um página na internet. Não sei também se era um blog, um flog ou algum outro desses nomes, que caem mesmo no esquecimento, soterrados por tantos outros que pipocam a cada fim de tarde.
Meu processo de criação durou semanas... Não sei se pela inexperiência; pelo acesso à internet restrito aos finais-de-semana, em que a taxa era mais barata; se pela dificuldade de obter a combinação perfeita entre o verde-neon e o preto; se pela dificuldade de encontrar o que postar alí ou se porque, naquele tempo, as coisas eram realmente mais difíceis.
O interessante é que fiquei imensamente feliz quando terminei a minha programação. Fui contar, radiante, ao meu pai. Eu havia criado um site (ou algo do gênero)! Ele não acreditou. Não acreditou mesmo! Não deu bola, nem foi ver... Estávamos atrasados porque íamos ao clube e um site, naquele tempo, era uma coisa de peso. Parecia, ao menos, distante demais de um garotinho.
É claro que o “blog” não foi pra frente. Eu não tinha o que postar e ele, ninguém para ler.
Talvez venha daí, desse quase-trauma, a minha surpresa com a criação imediata de um blog. Um espaço múltiplo, possível de se acessar de qualquer parte do mundo, por qualquer pessoas que tenha um computador conectado. Daqui a gente pode mostrar um milhão coisas e conversar com elas, pode fazer até uma revolução! Pode?
Esse espaço quase mágico – quase mítico, quando se é um garotinho –, hoje pode ser criado com pouco mais tempo que um estalar de dedos. Tudo bem que há blogs e blogs e suas diferenças predizem o tempo de criação. Mas o básico pode ser aprendido em uma das milhares de páginas listadas pelo Google quando se procura: como criar um blog. Eu fui procurar. Eu vi! Qualquer um pode ter seu blog, seu espaço de expressão, divagação, de exibicionismo, de contato com o inimaginável. Qualquer um pode produzir informação rápida, seja ela boa ou má.
