Ha algum tempo li O Prazer do texto, de Roland Barthes. Selecionei algumas passagens interessantes e que vão de encontro ao que eu já havia dito no post anterior sobre o mesmo tema. Creio que este é um importante e clássico respaldo teórico que deva ser levado em conta. Abaixo, os trechos:
Página 07
O prazer do texto: qual o simulador de Bacon, ele nunca pode dizer: jamais se desculpar, jamais se explicar. Nunca ele nega nada: "Desviarei meu olhar, será doravante a minha única negação".
Página 11
O texto que o senhor escreve tem que me dar prova de que ele me deseja. Essa prova existe: é a escritura. A escritura é isto: a ciência das fruições da linguagem, seu kama-sutra (desta ciência, só há um tratado: a própria escritura).
Página 12
Daí, talvez, um meio de avaliar as obras da modernidade: seu valor proviria de sua duplicidade. Cumpre entender por isso que elas têm sempre duas margens. A margem subversiva pode parecer privilegiada porque é a da violência; mas não é a violência que impressiona o prazer; a destruição não lhe interessa; o que ele quer é o lugar de uma perda, é a fenda, o corte, a deflação, o fading que se apodera do sujeito no imo da fruição. A cultura remota, portanto, como margem: sob não importa qual forma.
Página 15
Eis um estado muito sutil, quase insustentável, do discurso: a narratividade é desconstruída e a história permanece no entanto legível: nunca as duas margens da fenda foram mais nítidas e mais tênues, nunca o prazer foi melhor oferecido ao leitor - pelo menos se ele gosta das rupturas vigiadas, dos conformismos falsificados e das destruições indiretas. Ademais o êxito pode ser aqui reportado a um autor, junta-se-lhe o prazer do desempenho: a proeza é manter a mimésis da linguagem (a linguagem imitando-se a si propria), fonte de grandes prazeres, de uma maneira tão radicalmente ambígua (ambígua até a raiz) que o texto não tombe jamais sob a boa consciência (e a má fé) da paródia (do risco castrador, do "cômico que faz rir").
Página 23
Na cena do texto não há ribalta: não existe ninguém ativo (o escritor) e ninguém passivo (o leitor); não há um sujeito e um objeto. O texto prescreve as atitudes gramaticais: é o olho indiferenciado de que fala um autor excessivo (Angelus Silesius). "O olho por onde eu vejo Deus é o mesmo olho por onde ele me vê".
Página 40
Alguns querem um texto sem sombra, cortado da "ideologia dominante"; mas é querer um texto sem fecundidade, sem produtividade, um texto estéril. O texto tem a necessidade de sua sombra: essa sombra é um pouco de ideologia, um pouco de representação, um pouco de sujeito: fantasmas, bolsos, rastros, nuvens necessárias; a subversão deve produzir seu próprio claro-escuro.
Página 41
Marcar bem os imaginários da linguagem, a saber: a palavra como unidade singular, mônada mágica; a fala como instrumento ou expressão do pensamento; a escritura como transliteração da fala; a frase como medida lógica, fechada; a própria carência ou a recusa de linguagem como força primária, espontânea, pragmática. O imaginário da ciência (a ciência como imaginário) toma a seu cargo todos esses artefatos: a linguistica enuncia de fato a verdade sobre a linguagem, mas, somente nisto: "que nenhuma ilusão consciente é cometida": ora é a própria definição do inconsciente.
Já é um primeiro trabalho o de restabelecer na ciência da linguagem aquilo que só lhe é atribuído, fortuitamente, desdenhosamente, ou com mais frequência ainda, recusado: a semiologia (a estilística, a retórica, dizia Nietzsche), a prática, a ação ética, o entusiasmo. Um segundo trabalho é o de reencaixar na ciência o que vai contra ela: aqui, o texto. O texto é a linguagem sem o seu imaginário, é o que falta à ciência da linguagem para que seja manifestada sua importância geral (e não sua particularidade tecnocrática). Tudo o que é apenas tolerado ou terminantemente recusado pela linguística (como ciência canônica, positivista), a significância, a fruição, é presisamente isso que afasta o texto dos imaginários da linguagem.
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BARTHES, R, O prazer do texto. Trad. J. Guinsburg. 3ª ed. São Paulo: Editora Perspectiva. 2002.
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