terça-feira, 25 de agosto de 2009

Curso Superior

Marcelino Freire


O meu medo é entrar na faculdade e tirar zero eu que nunca fui bom de matemática fraco no inglês eu que nunca gostei de química geografia e português o que é que eu faço agora hein mãe não sei.

O meu medo é o preconceito e o professor ficar me perguntando o tempo inteiro por que eu não passei por que eu não passei por que eu não passei por que fiquei olhando aquela loira gostosa o que é que eu faço se ela me der bola hein mãe não sei.

O meu medo é a loira gostosa ficar grávida e eu não sei como a senhora vai receber a loira gostosa lá em casa se a senhora disse um dia que eu devia olhar bem para a minha cara antes de chegar aqui com uma namorada hein mãe não sei.

O meu medo também é do pai da loira gostosa e da mãe da loira gostosa e do irmão da loira gostosa no dia em que a loira gostosa me apresentar para a família como o homem da sua vida será que é verdade será que isso é felicidade hein mãe não sei.

O meu medo é a situação piorar e eu não conseguir arranjar emprego nem de faxineiro nem de porteiro nem de ajudante de pedreiro e o pessoal dizer que o governo já fez o que pôde já pôde o que fez já deu a sua cota de participação hein mãe não sei.

O meu medo é que mesmo com diploma debaixo do braço andando por ai desiludido e desempregado o policial me olhe de cara feia e eu acabe fazendo uma burrice sei lá uma besteira será que vou ter direito a uma cela especial hein mãe não sei.

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Aproveitando a onda dos contos, acho as estratégias textuais empregadas nesse conto muito interessante.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Um fake-post

Pra começar, esse é um não-momento. O momento exato seria aquele que se seguiria ao seminário sobre Jornalismo Literário. Era sobre o seminário que eu trataria hoje. E o seminário não aconteceu.
Mas é claro que sempre há um "plano B"... Que é pra gente não precisar de tirar alguma coisa da cartola. Meu plano B, devo admitir, é também um plano falido.

O post é fake e é quase um não-post justamente por começar com desculpas e terminar sem o texto.

Um dos vários motivos da falência do plano B é a memória. Digo "memória" como tema. O mesmo do post da Lara.

Vou deixar então a indicação de um conto. Um texto lindo, que é pra ser leve e é pra ser na sexta.

O conto - esse aqui - é do Caio Fernando Abreu. Chama-se "Sem Ana, Blues" e se relaciona com a memória ao tratar do esforço para se esquecer. Da dor que, às vezes, é o lembrar.

E é esse o tema do texto de Caio. E há ritmo, há um amor perdido e há, ao final, a certeza do passado ser pra sempre. Ele nos acompanha na memória e, só por ser lembrado, já passa a ser presente.


quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Funes, o Memorioso

"... Este, não o esqueçamos, era quase incapaz de idéias gerais, platônicas. Não apenas lhe custava compreender que o símbolo genérico cão abarcava tantos indivíduos díspares de diversos tamanhos e diversa forma; perturbava-lhe que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e quatro (visto de frente). Sua própria face no espelho, suas próprias mãos, surpreendiam-no cada vez. Comenta Swift que o imperador de Lilliput discernia o movimento do ponteiro dos minutos; Funes discernia continuamente os avanços tranqüilos da corrupção, das cáries, da fatiga. Notava os progressos da morte, da umidade. Era o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intolerantemente preciso. Babilônia, Londres e Nova York têm preenchido com feroz esplendor a imaginação dos homens; ninguém, em suas torres populosas ou em suas avenidas urgentes, sentira o calor e a pressão de uma realidade tão infatigável como a que dia e noite convergia sobre o infeliz Ireneo, em seu pobre subúrbio sulamericano. Era-llhe muito difícil dormir. Dormir é distrair-se do mundo; Funes, de costas na cama, na sombra, figurava a si mesmo cada rachadura e cada moldura das casas distintas que o redoavam. (Repito que o menos importante das suas lembranças era mais minucioso e mais vivo que nossa percepção de um gozo físico ou de um tormento físico). Em direção ao leste, em um trecho não pavimentado, havia casas novas, desconhecidas. Funes as imaginava negras, compactas, feitas de treva homogênea; nessa direção virava o rosto para dormir. Também era seu costume imaginar-se no fundo do rio, mexido e anulado pela corrente."

Funes, o Memorioso. De Jorge Luis Borges


Para hoje, escolhi postar este belo conto de Jorge Luis Borges, devido, entre as tantas qualidades estilísticas deste texto, à forma através da qual o tema da memória é aqui tratado.
Se no maior das vezes nos deixamos levar pela idéia da memória como algo construtor de nossa identidade - pois é através da repetição das atitudes e da lembrança destas que diariamente nos tornamos quem nós somos - no conto de Borges nos deparamos com uma memória que, por ser tanta, acaba por tomar a identidade de um sujeito, fazendo com que este não se reconheça mais e não reconheça mais aquilo que o cerca. A cada vez que observa um objeto, é como se Funes o observasse pela primeira vez, pois capta, naquele instante singular, detalhes que ninguém mais captaria. Assim, é anulado em sua capacidade de reconhecer e, conta-nos o autor, de conceber uma idéia concreta, de pensar.

Como temos lidado com o tema da memória em algumas de nossas atividades e gincanas no CCNM, pensei talvez ser este conto um contraponto interessante em relação à concepção de memória com a qual trabalhamos. É preciso esquecer para lembrar, nos mostra Borges por trás do tom às vezes fantasioso de seu conto. É preciso ter passado, mas também é preciso ter presente, para que a Mnemosyne não engula nossa identidade.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Ausências na comunicação social e no jornalismo: A lógica da rua

Li esse texto do Fernando Resende essa semana e achei interessante pensarmos sobre:


Ausências na comunicação social e no jornalismo:

A lógica da rua1


O campo dos media configura-se, na sociedade que vive uma cultura pós-industrializada, como um dos mais importantes campos sociais. Ao pensarmos na constituição de um espaço público determinado pelo imbricamento de redes de experiências, tanto sociais como culturais e/ou de outras ordens, reconhecemos a comunicação social, e portanto os seus saberes e as suas práticas formatadas pelos aparatos tecnológicos, como constitutiva de um campo que muito contribui para que as relações sociais, na sociedade contemporânea, sejam, ao mesmo tempo, tecidas e compreendidas.
Na dimensão de um contemporâneo em que as sociabilidades se configuram por vias mediatizadas, a noção de espaço público, como lugar simbólico em que se tecem e se estabelecem as relações sociais, ganha relevos significativos. Tratam-se de fatores que, principalmente por alterarem as relações que as pessoas estabelecem com as noções de espaço e de tempo, reconfiguram os papéis e as pertinências dos vários campos que constituem a sociedade. As relações, que de diretas passam a ser sobrepostas, e nunca substituídas, pelas de circulação mediática, se conformam em um espaço cuja ordem se estabelece a partir de uma correlação de forças. No âmbito do espaço público conflituoso,2 são os vários campos e organizações sociais coexistentes, através dos quais se articulam os saberes e as práticas cotidianas, que se reorganizam, constantemente. Nesse sentido, o avanço tecnológico sofrido pela sociedade que tem se configurado nos últimos 50 anos é um dado preponderante.
É o campo dos media, particularmente em suas perspectivas práticas, um dos grandes responsáveis pelas alterações a que nos aludimos. Principalmente a partir da chegada da televisão, o ato de estar no mundo ganha novas conformações. Não cabe aqui uma apologia à imagem e muito menos uma referência à sua possível preponderância no mundo atual, mas constatar o fato de que o advento da mídia eletrônica muito contribuiu para o encurtamento e o remodelamento dos espaços, das distâncias e dos tempos, cumprindo assim um importante papel tanto na reconfiguração do espaço público contemporâneo como na atenção que se volta para a importância da existência dos meios na sociedade. Primeiro, porque, no espaço público a que nos referimos, outros campos sociais, sejam de ordens políticas, jurídicas, econômicas ou culturais, passam a ter de se articular, de conviver e correlacionar forças, com o campo através do qual se fala, tanto deles como por eles. Depois, porque foi praticamente a reboque da televisão que todos os outros meios de comunicação, nascidos antes ou após o seu advento, ganharam uma relevância fundamental, fator que traz à tona a importância de todo o campo dos media.
Trata-se de um campo, como também o são os outros, que tanto se faz autônomo como dependente. Sua especificidade, entretanto, reside no fato de que a discursividade e a narratividade, além da tecnologia, sejam elementos nodais na sua própria constituição.3 Em outras palavras, ele instaura, ao mesmo tempo em que conforma e redefine, discursos sobre e para a sociedade; ou seja, ele cria e recria práticas sociais discursivas que tanto desejam falar da sociedade como constituir-se enquanto saber acerca desta mesma sociedade. O paradoxo se estabelece quando percebemos que, paralelamente a este processo, ressalta-se sua relativa dependência de outros campos, já que o discurso que ele cria sobrevive, também e fundamentalmente, da existência de outras instituições sociais de caráter estritamente político, econômico, cultural e/ou de qualquer outra ordem. Ou ainda, trata-se de um campo que tanto precisa dialogar com outros organismos da sociedade como também deles falar. Sendo assim, ele formata a sociedade ao mesmo tempo em que viabiliza leituras acerca da sociedade instituída e formatada por outros campos.
Ademais, junte-se a estes aspectos o fato de que trata-se de narrar experiências e modos de vida, calcados em subjetividades que estão insistentemente cravadas na objetividade demandada pela necessária lida com o cotidiano. Ou seja, eles intereferem no status quo e recriam modos de vida, porque lêem e provocam releituras de experiências subjetivas e objetivas e, vale dizer, de forma às vezes tão imperativa que tornam-se o lugar de onde as pessoas retiram o que sabem e o que se dispõem a compreender acerca do cotidiano e da vida. Estes talvez sejam alguns dos fatores mais fundamentais que têm provocado tantos estudos e reflexões acerca da presença da comunicação social na sociedade contemporânea.


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1
Este trabalho foi realizado no âmbito do Programa de Bolsa CES de Curta Duração (Janeiro/2004), no Centro de
Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Portugal, instituição à qual o autor é
profundamente grato.
2
Cf. Miège (1992). O autor trabalha com a noção de conflito entre os diversos atores e campos sociais, como a nova
ordem que rege o espaço público contemporâneo. Para a discussão acerca dos media e do espaço público, o trabalho
de Jürgen Habermas, Mudança estrutural da esfera pública (1986), é de fundamental importância.
3
Ver, nesse sentido, um importante trabalho de Rodrigues (1984). O autor discute a “tríplice componente” que
delimita o campo dos media como instituição social. Outros trabalhos posteriores têm o mérito de discutir as
particularidades a que estas especificidades estão sujeitas, mas o trabalho citado traz a discussão mais geral acerca
do assunto.