sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Agenda de Feriado

Sexta-feira, véspera de feriado, e a cidade pipocando em acontecimentos pra lá de bacanas. Alguns deles, raros e, por que não dizer, especialíssimos?! Sendo assim, não poderiam passar desapercebidos em um parlatorium. Não mesmo.


  • O SONHO E A VIDA DE MARC CHAGALL

A maior reunião de trabalhos do pintor já realizada no Brasil, a exposição “O Sonho e a Vida de Marc Chagal” conta com mais de 300 obras. Os trabalhos de Chagall, sempre inundados de cores e fortemente marcados pelo fantástico, podem ser vistos na Casa Fiat de Cultura até o dia 4 de outubro.

A exposição, completíssima, está dividida especialmente a partir de fases artísticas do pintor. O visitante ainda poderá ter noções sobre a relação entre Chagall e o Brasil, conhecendo as obras de outros artistas fortemente influenciados pelo mestre, que se radicou na França e marcou época como um dos mais brilhantes pintores do século XX.

Para o final-de-semana prolongado, tudo a partir das 14h.


  • RODIN, DO ATELIÊ AO MUSEU

Ainda na Casa Fiat de Cultura – que, apesar de bem distante, possui sistema de transporte gratuito que parte da Praça da Liberdade –, a exposição traz vinte e duas esculturas do gênio parisiense, além de fotografias que registram o trabalho e o processo de criação de Rodin, que dispensa maiores apresentações.

A maioria das obras, tanto fotografias quanto esculturas, jamais saíram da França, o que já é motivo suficiente pra sair da frente do computador. “De quebra”, ainda dá pra ver Chagall e voltar meio extasiado pra casa.

Todos os detalhes das exposições de Chagal e Rodin, aqui.


  • VIK

Na Fundação Inimá de Paula – na Rua da Bahia e bem perto de você – acontece a exposição das fotografias de Vik Muniz. Certamente um dos maiores artistas nacionais da atualidade, Vik é radicado nos EUA e raramente têm seu trabalho exposto com tanto destaque em solos brasileiros. Pra quem não conhece, Vik trabalha com (re)contruções de imagens a partir de fragmentos de coisas, porções granuladas ou mesmo dejetos.

A exposição está fantástica. Apesar de poucos guias e pouca informação ao longo do trajeto, um vídeo, exibido em uma espécie de sala de cinema, esclarece a maioria das dúvidas e curiosidades, bem como os micro-vídeos que se apresentam entre uma obra e outra, mostrando o processo de montagem da figura fotografada.

Todos os detalhes, aqui!


  • INDIE FESTIVAL

A Mostra Mundial de Cinema Indie teve início nesse dia 3 de setembro e vai até dia o 10. Já em sua nona edição, a mostra acontece em seis cinemas da capital mineira. Sempre com um público bem interessante e diversificado, é uma ótima oportunidade para conhecer filmes que não chegaram e nem chegarão aos cinemas mais convencionais.

Posso dizer que já vi filmes fantásticos em outras versões do festival.

A programação está disponível aqui e em um catálogo que pode ser adquirido em qualquer cinema parceiro da mostra - e que, normalmente, é lindo e vem com as sinopses de todos os filmes.

Vale lembrar que nada é pago. Os ingressos são distribuídos cerca de meia hora antes de cada filme, o que faz lembrar também da necessidade de se chegar, pelo menos, 50 minutos antes de cada exibição.

Mias informações, aqui!


  • SAVASSI FESTIVAL 2009

Pra quem gosta mais da noite, do Jazz e Lounge. O festival começou nessa quinta feira nos cafés e bares mais cotados da Savassi. Com programação bem diversificada, a coisa toda acontece em ambientes fechados e sujeitos a couvert, o que só muda na segunda-feira. Dia 7 é o dia em que a rua fecha e pessoal se joga na Antônio de Albuquerque. Pra fechar a noite de segunda, ainda tem festa na Velvet Club, a partir das 22h, mediante o pagamento de 10 reais.

A programação é bem legal e o público é bem Café com Letras, com uma ou outra variação mais brusca. Vale a pena por ser diferente, por ter muita gente e pela música, que é boa sim.


  • 7° ENCONTRO NACIONAL UNIVERSITÁRIO DE DIVERSIDADE SEXUAL

Acontece em várias das dependências da UFMG, no Campus Pampulha, do dia 3 à 7 de setembro. Além de palestras e discussões, o encontro contará com quatro festas: na quinta, sexta, sábado e domingo.

Para quem gosta de jogos e piscina, domingo, no CEU, acontecerá uma série de jogos temáticos a partir de 12h.

Mais detalhes no site do ENUDS.


Bom... Ficar em casa no feriado, só se for por opção.





terça-feira, 25 de agosto de 2009

Curso Superior

Marcelino Freire


O meu medo é entrar na faculdade e tirar zero eu que nunca fui bom de matemática fraco no inglês eu que nunca gostei de química geografia e português o que é que eu faço agora hein mãe não sei.

O meu medo é o preconceito e o professor ficar me perguntando o tempo inteiro por que eu não passei por que eu não passei por que eu não passei por que fiquei olhando aquela loira gostosa o que é que eu faço se ela me der bola hein mãe não sei.

O meu medo é a loira gostosa ficar grávida e eu não sei como a senhora vai receber a loira gostosa lá em casa se a senhora disse um dia que eu devia olhar bem para a minha cara antes de chegar aqui com uma namorada hein mãe não sei.

O meu medo também é do pai da loira gostosa e da mãe da loira gostosa e do irmão da loira gostosa no dia em que a loira gostosa me apresentar para a família como o homem da sua vida será que é verdade será que isso é felicidade hein mãe não sei.

O meu medo é a situação piorar e eu não conseguir arranjar emprego nem de faxineiro nem de porteiro nem de ajudante de pedreiro e o pessoal dizer que o governo já fez o que pôde já pôde o que fez já deu a sua cota de participação hein mãe não sei.

O meu medo é que mesmo com diploma debaixo do braço andando por ai desiludido e desempregado o policial me olhe de cara feia e eu acabe fazendo uma burrice sei lá uma besteira será que vou ter direito a uma cela especial hein mãe não sei.

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Aproveitando a onda dos contos, acho as estratégias textuais empregadas nesse conto muito interessante.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Um fake-post

Pra começar, esse é um não-momento. O momento exato seria aquele que se seguiria ao seminário sobre Jornalismo Literário. Era sobre o seminário que eu trataria hoje. E o seminário não aconteceu.
Mas é claro que sempre há um "plano B"... Que é pra gente não precisar de tirar alguma coisa da cartola. Meu plano B, devo admitir, é também um plano falido.

O post é fake e é quase um não-post justamente por começar com desculpas e terminar sem o texto.

Um dos vários motivos da falência do plano B é a memória. Digo "memória" como tema. O mesmo do post da Lara.

Vou deixar então a indicação de um conto. Um texto lindo, que é pra ser leve e é pra ser na sexta.

O conto - esse aqui - é do Caio Fernando Abreu. Chama-se "Sem Ana, Blues" e se relaciona com a memória ao tratar do esforço para se esquecer. Da dor que, às vezes, é o lembrar.

E é esse o tema do texto de Caio. E há ritmo, há um amor perdido e há, ao final, a certeza do passado ser pra sempre. Ele nos acompanha na memória e, só por ser lembrado, já passa a ser presente.


quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Funes, o Memorioso

"... Este, não o esqueçamos, era quase incapaz de idéias gerais, platônicas. Não apenas lhe custava compreender que o símbolo genérico cão abarcava tantos indivíduos díspares de diversos tamanhos e diversa forma; perturbava-lhe que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e quatro (visto de frente). Sua própria face no espelho, suas próprias mãos, surpreendiam-no cada vez. Comenta Swift que o imperador de Lilliput discernia o movimento do ponteiro dos minutos; Funes discernia continuamente os avanços tranqüilos da corrupção, das cáries, da fatiga. Notava os progressos da morte, da umidade. Era o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intolerantemente preciso. Babilônia, Londres e Nova York têm preenchido com feroz esplendor a imaginação dos homens; ninguém, em suas torres populosas ou em suas avenidas urgentes, sentira o calor e a pressão de uma realidade tão infatigável como a que dia e noite convergia sobre o infeliz Ireneo, em seu pobre subúrbio sulamericano. Era-llhe muito difícil dormir. Dormir é distrair-se do mundo; Funes, de costas na cama, na sombra, figurava a si mesmo cada rachadura e cada moldura das casas distintas que o redoavam. (Repito que o menos importante das suas lembranças era mais minucioso e mais vivo que nossa percepção de um gozo físico ou de um tormento físico). Em direção ao leste, em um trecho não pavimentado, havia casas novas, desconhecidas. Funes as imaginava negras, compactas, feitas de treva homogênea; nessa direção virava o rosto para dormir. Também era seu costume imaginar-se no fundo do rio, mexido e anulado pela corrente."

Funes, o Memorioso. De Jorge Luis Borges


Para hoje, escolhi postar este belo conto de Jorge Luis Borges, devido, entre as tantas qualidades estilísticas deste texto, à forma através da qual o tema da memória é aqui tratado.
Se no maior das vezes nos deixamos levar pela idéia da memória como algo construtor de nossa identidade - pois é através da repetição das atitudes e da lembrança destas que diariamente nos tornamos quem nós somos - no conto de Borges nos deparamos com uma memória que, por ser tanta, acaba por tomar a identidade de um sujeito, fazendo com que este não se reconheça mais e não reconheça mais aquilo que o cerca. A cada vez que observa um objeto, é como se Funes o observasse pela primeira vez, pois capta, naquele instante singular, detalhes que ninguém mais captaria. Assim, é anulado em sua capacidade de reconhecer e, conta-nos o autor, de conceber uma idéia concreta, de pensar.

Como temos lidado com o tema da memória em algumas de nossas atividades e gincanas no CCNM, pensei talvez ser este conto um contraponto interessante em relação à concepção de memória com a qual trabalhamos. É preciso esquecer para lembrar, nos mostra Borges por trás do tom às vezes fantasioso de seu conto. É preciso ter passado, mas também é preciso ter presente, para que a Mnemosyne não engula nossa identidade.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Ausências na comunicação social e no jornalismo: A lógica da rua

Li esse texto do Fernando Resende essa semana e achei interessante pensarmos sobre:


Ausências na comunicação social e no jornalismo:

A lógica da rua1


O campo dos media configura-se, na sociedade que vive uma cultura pós-industrializada, como um dos mais importantes campos sociais. Ao pensarmos na constituição de um espaço público determinado pelo imbricamento de redes de experiências, tanto sociais como culturais e/ou de outras ordens, reconhecemos a comunicação social, e portanto os seus saberes e as suas práticas formatadas pelos aparatos tecnológicos, como constitutiva de um campo que muito contribui para que as relações sociais, na sociedade contemporânea, sejam, ao mesmo tempo, tecidas e compreendidas.
Na dimensão de um contemporâneo em que as sociabilidades se configuram por vias mediatizadas, a noção de espaço público, como lugar simbólico em que se tecem e se estabelecem as relações sociais, ganha relevos significativos. Tratam-se de fatores que, principalmente por alterarem as relações que as pessoas estabelecem com as noções de espaço e de tempo, reconfiguram os papéis e as pertinências dos vários campos que constituem a sociedade. As relações, que de diretas passam a ser sobrepostas, e nunca substituídas, pelas de circulação mediática, se conformam em um espaço cuja ordem se estabelece a partir de uma correlação de forças. No âmbito do espaço público conflituoso,2 são os vários campos e organizações sociais coexistentes, através dos quais se articulam os saberes e as práticas cotidianas, que se reorganizam, constantemente. Nesse sentido, o avanço tecnológico sofrido pela sociedade que tem se configurado nos últimos 50 anos é um dado preponderante.
É o campo dos media, particularmente em suas perspectivas práticas, um dos grandes responsáveis pelas alterações a que nos aludimos. Principalmente a partir da chegada da televisão, o ato de estar no mundo ganha novas conformações. Não cabe aqui uma apologia à imagem e muito menos uma referência à sua possível preponderância no mundo atual, mas constatar o fato de que o advento da mídia eletrônica muito contribuiu para o encurtamento e o remodelamento dos espaços, das distâncias e dos tempos, cumprindo assim um importante papel tanto na reconfiguração do espaço público contemporâneo como na atenção que se volta para a importância da existência dos meios na sociedade. Primeiro, porque, no espaço público a que nos referimos, outros campos sociais, sejam de ordens políticas, jurídicas, econômicas ou culturais, passam a ter de se articular, de conviver e correlacionar forças, com o campo através do qual se fala, tanto deles como por eles. Depois, porque foi praticamente a reboque da televisão que todos os outros meios de comunicação, nascidos antes ou após o seu advento, ganharam uma relevância fundamental, fator que traz à tona a importância de todo o campo dos media.
Trata-se de um campo, como também o são os outros, que tanto se faz autônomo como dependente. Sua especificidade, entretanto, reside no fato de que a discursividade e a narratividade, além da tecnologia, sejam elementos nodais na sua própria constituição.3 Em outras palavras, ele instaura, ao mesmo tempo em que conforma e redefine, discursos sobre e para a sociedade; ou seja, ele cria e recria práticas sociais discursivas que tanto desejam falar da sociedade como constituir-se enquanto saber acerca desta mesma sociedade. O paradoxo se estabelece quando percebemos que, paralelamente a este processo, ressalta-se sua relativa dependência de outros campos, já que o discurso que ele cria sobrevive, também e fundamentalmente, da existência de outras instituições sociais de caráter estritamente político, econômico, cultural e/ou de qualquer outra ordem. Ou ainda, trata-se de um campo que tanto precisa dialogar com outros organismos da sociedade como também deles falar. Sendo assim, ele formata a sociedade ao mesmo tempo em que viabiliza leituras acerca da sociedade instituída e formatada por outros campos.
Ademais, junte-se a estes aspectos o fato de que trata-se de narrar experiências e modos de vida, calcados em subjetividades que estão insistentemente cravadas na objetividade demandada pela necessária lida com o cotidiano. Ou seja, eles intereferem no status quo e recriam modos de vida, porque lêem e provocam releituras de experiências subjetivas e objetivas e, vale dizer, de forma às vezes tão imperativa que tornam-se o lugar de onde as pessoas retiram o que sabem e o que se dispõem a compreender acerca do cotidiano e da vida. Estes talvez sejam alguns dos fatores mais fundamentais que têm provocado tantos estudos e reflexões acerca da presença da comunicação social na sociedade contemporânea.


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1
Este trabalho foi realizado no âmbito do Programa de Bolsa CES de Curta Duração (Janeiro/2004), no Centro de
Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Portugal, instituição à qual o autor é
profundamente grato.
2
Cf. Miège (1992). O autor trabalha com a noção de conflito entre os diversos atores e campos sociais, como a nova
ordem que rege o espaço público contemporâneo. Para a discussão acerca dos media e do espaço público, o trabalho
de Jürgen Habermas, Mudança estrutural da esfera pública (1986), é de fundamental importância.
3
Ver, nesse sentido, um importante trabalho de Rodrigues (1984). O autor discute a “tríplice componente” que
delimita o campo dos media como instituição social. Outros trabalhos posteriores têm o mérito de discutir as
particularidades a que estas especificidades estão sujeitas, mas o trabalho citado traz a discussão mais geral acerca
do assunto.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Mais sobre linguagem, para se pensar o caso da Gincana Cultural Contando Memórias

Ha algum tempo li O Prazer do texto, de Roland Barthes. Selecionei algumas passagens interessantes e que vão de encontro ao que eu já havia dito no post anterior sobre o mesmo tema. Creio que este é um importante e clássico respaldo teórico que deva ser levado em conta. Abaixo, os trechos:

Página 07

O prazer do texto: qual o simulador de Bacon, ele nunca pode dizer: jamais se desculpar, jamais se explicar. Nunca ele nega nada: "Desviarei meu olhar, será doravante a minha única negação".

Página 11

O texto que o senhor escreve tem que me dar prova de que ele me deseja. Essa prova existe: é a escritura. A escritura é isto: a ciência das fruições da linguagem, seu kama-sutra (desta ciência, só há um tratado: a própria escritura).

Página 12

Daí, talvez, um meio de avaliar as obras da modernidade: seu valor proviria de sua duplicidade. Cumpre entender por isso que elas têm sempre duas margens. A margem subversiva pode parecer privilegiada porque é a da violência; mas não é a violência que impressiona o prazer; a destruição não lhe interessa; o que ele quer é o lugar de uma perda, é a fenda, o corte, a deflação, o fading que se apodera do sujeito no imo da fruição. A cultura remota, portanto, como margem: sob não importa qual forma.

Página 15

Eis um estado muito sutil, quase insustentável, do discurso: a narratividade é desconstruída e a história permanece no entanto legível: nunca as duas margens da fenda foram mais nítidas e mais tênues, nunca o prazer foi melhor oferecido ao leitor - pelo menos se ele gosta das rupturas vigiadas, dos conformismos falsificados e das destruições indiretas. Ademais o êxito pode ser aqui reportado a um autor, junta-se-lhe o prazer do desempenho: a proeza é manter a mimésis da linguagem (a linguagem imitando-se a si propria), fonte de grandes prazeres, de uma maneira tão radicalmente ambígua (ambígua até a raiz) que o texto não tombe jamais sob a boa consciência (e a má fé) da paródia (do risco castrador, do "cômico que faz rir").

Página 23

Na cena do texto não há ribalta: não existe ninguém ativo (o escritor) e ninguém passivo (o leitor); não há um sujeito e um objeto. O texto prescreve as atitudes gramaticais: é o olho indiferenciado de que fala um autor excessivo (Angelus Silesius). "O olho por onde eu vejo Deus é o mesmo olho por onde ele me vê".

Página 40

Alguns querem um texto sem sombra, cortado da "ideologia dominante"; mas é querer um texto sem fecundidade, sem produtividade, um texto estéril. O texto tem a necessidade de sua sombra: essa sombra é um pouco de ideologia, um pouco de representação, um pouco de sujeito: fantasmas, bolsos, rastros, nuvens necessárias; a subversão deve produzir seu próprio claro-escuro.

Página 41

Marcar bem os imaginários da linguagem, a saber: a palavra como unidade singular, mônada mágica; a fala como instrumento ou expressão do pensamento; a escritura como transliteração da fala; a frase como medida lógica, fechada; a própria carência ou a recusa de linguagem como força primária, espontânea, pragmática. O imaginário da ciência (a ciência como imaginário) toma a seu cargo todos esses artefatos: a linguistica enuncia de fato a verdade sobre a linguagem, mas, somente nisto: "que nenhuma ilusão consciente é cometida": ora é a própria definição do inconsciente.
Já é um primeiro trabalho o de restabelecer na ciência da linguagem aquilo que só lhe é atribuído, fortuitamente, desdenhosamente, ou com mais frequência ainda, recusado: a semiologia (a estilística, a retórica, dizia Nietzsche), a prática, a ação ética, o entusiasmo. Um segundo trabalho é o de reencaixar na ciência o que vai contra ela: aqui, o texto. O texto é a linguagem sem o seu imaginário, é o que falta à ciência da linguagem para que seja manifestada sua importância geral (e não sua particularidade tecnocrática). Tudo o que é apenas tolerado ou terminantemente recusado pela linguística (como ciência canônica, positivista), a significância, a fruição, é presisamente isso que afasta o texto dos imaginários da linguagem.


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BARTHES, R, O prazer do texto. Trad. J. Guinsburg. 3ª ed. São Paulo: Editora Perspectiva. 2002.



segunda-feira, 27 de julho de 2009

o conceito de livro e a Gincana Cultural Contando Memórias.

Pensando sobre temas que dizem respeito à "Gincana Cultural Contando Memórias", por muitas vezes chegamos a nos deparar com idéias que, apesar de sinalizarem para uma solução, acabam por parecer, em um primeiro momento, insolúveis. Contudo, por estarmos, creio eu, em um momento de criação e discussão acerca de linguagem, metodologia, cultura, entre tantos outros aspectos, parece ser importante que tenhamos fôlego para ao menos seguirmos estas idéias, e por fim ver onde elas desembocam.

Esta introdução, que talvez se pareça mais com um pedido de desculpa do que com uma abertura de um texto, quer na verdade chamar para pensarmos em uma questão específica acerca da Gincana Contando Memórias. Sabemos que boa parte dos grupos inscritos neste evento não possui como primeira forma de expressão cultural a linguagem, o que não significa, de maneira alguma, que suas expressões sejam menos ricas ou menos culturalmente elaboradas. Temos, também, conhecimento de que o produto final desta gincana seria a elaboração de um livro virtual que contenha as histórias que dizem respeito àquele grupo, ou seja, um livro que traga em si a memória de uma determinada comunidade.

O que eu me arriscaria a propôr é que pensemos no conceito de livro de uma forma um pouco mais abrangente, talvez próxima do conceito que se conhece como livro-objeto. Talvez, se aceitássemos o livro como algo que abriga mais do que uma história manifestada por meio da linguagem, como algo que pode trazer em si experiências visuais, experiências sonoras, experiências estéticas, que podem ser potencializadas pelo fato de tratar-se de um livro virtual, talvez, então, as expressões culturais de tais grupos possam ser enfatizadas de forma mais próxima do real, e a transmissão destas culturas e destas memórias se dê mais satisfatoriamente.

Reitero, porém, o que disse no início deste texto: idéias que se pretendiam soluções podem se tornar problemas quando confrontadas com o real. Porém, acho que existe valor em seguirmos até certo ponto algumas idéias, pois o meio que elas percorrem pode, algumas vezes, ser mais rico e proveitoso que o fim ao qual elas nos conduzem.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Impressões de dentro da pedra



(para ouvir enquanto se lê)


Preciso confessar que carregava comigo uma série de pré-conceitos (e separo assim pra ficar menos pejorativo ou diminuir o peso da palavra... não que eu mereça).
Esses conceitos prévios dizem respeito a tudo. Aliás, queriam dizer. Foram construídos a partir de um ponto de vista que emerge de um senso comum, alienado, impetuoso. Foram todos destruídos pelo simples contato com a realidade, que me pareceu bem melhor daquilo que eu imaginava.

Estou tratando aqui da Fundação Xuxa Meneghel, do ambiente e comunidade de Pedra de Guaratiba, das crianças auxiliadas pela Fundação.

É a segunda vez que começo esse texto, tentando não me perder em narrações, a fim de fazer aqui um retrato, mesmo que pálido, acerca das minhas impressões, apenas.

Da Fundação, o que pude notar, além do cuidado com que é mantida a instalação física, foi a segurança que envolve as crianças que a frequentam. Um espaço que se estende a partir de uma alameda comprida e cheia de verde, cheia de sagüis e brinquedos, que revela, mais adiante, o espaço de interação, de aprendizado e de formação.
É notável também o carinho e a atenção dedicada às crianças. Aliás, dedicada, dedicação e compreensão das individualidades pareceram ser palavras de ordem.

Pra falar do lugar, de Pedra de Guaratiba, que só fui conhecer melhor no último dia de visita, é preciso tratar de carências e falta de estrutura. De um lugar que parte de uma via longa, que em seu lado mais habitado amontoam-se barracões, sem reboco, sem isso ou aquilo, que vão até sei-lá-onde, costurados por vielazinhas quase-labirinto. De uma região que chega a um mar sujo e que, na maré cheia, ainda conserva o cheiro da lama defunta que cobre o chão.
Pelo que procurei saber, a violência está sim presente e já faz parte da vida de cada um. Já está tão alí que há quem não a perceba. A ponto das crianças falaram de morte como algo quase natural. De tiroteios no carnaval, de gente que só morre porque “vacilou”, mas que, tirando isso, segundo uma das meninas assistidas pela Fundação, até que é tudo muito tranqüilo.
E realmente, tirando isso ou mais alguma coisa, me pareceu um lugar tranqüilo sim. Pacato, pobre e sem nenhum interesse por parte do governo, mas que ainda assim conserva nas pessoas aquilo de ter esperança e de andar sorrindo.

Das crianças não poderia ter tido melhor impressão. Das mais novinhas às mais jovens, tanto os meninos quanto as meninas, todos muitíssimo educados, carinhosos, bem dispostos.
Não sei dizer das suas carências, das dificuldades ou da casa onde vivem, mas ali na Fundação estavam em casa também. Divertiam-se, contavam histórias e comentavam sobre o show da Ivete Sangalo que iria acontecer no sábado à tarde, em Campo Grande – centro comercial mais próximo. Eram crianças como quaisquer outras que não carregavam, pelo menos aparentemente, o peso de morar num lugar tão deprimido pela falta de oportunidade e de assistência.

Acho ainda que vale dizer do clima agradável dali. Faz um sol bonito e de alguma forma é leve, mesmo que salgado pela baía e pela falta de recursos.

De tudo, sem querer me remeter à alguma coisa de Fernando Sabino, fica a certeza de um trabalho que vale a pena, tanto o nosso, do CCNM, quanto o da fundação-porto-seguro. A falta de intervenção e auxílio governamental é superada pela raça e vontade de fazer uma história melhor, mesmo que a custa de iniciativas privadas, sempre muito bem vindas nesses tempos de dinheiros que escorrem por debaixo de tapetes vermelhos no antigo planalto central.




Obs.: A narração, com impressões a mais e outras a menos, ainda há de ser postada, talvez não aqui. Mas isso é pra depois.


quarta-feira, 15 de julho de 2009

Pensações sobre Linguagem e Cultura no caso da Gincana Cultural Contando Memórias*

Creio que, quando pretendemos conhecer a memória de um determinado grupo cultural, não podemos abandonar alguns conceitos como cultura, mentalidade e política, que estão embricados nessa nossa prentensão.

Partindo dessa minha crença, prentendo, aqui, fazer algumas considerações (baseadas em estudos acadêmicos de outros) sobre a pertinência ou impertinência da edição nos textos que serão apresentados pelos grupos culturais que participarão da Gincana Cultural Contando Memórias, proposta pelo Centro de Convergência de Novas Mídias, financiada pelo ProExt Cultura.

Sempre ouvimos, por aqui, a palavra narrativa. Vários são os exemplos, o mais comum é a “narrativa urbana”. Mas, afinal, o que poderíamos chamar de narrativa? Partindo do princípio de que narrar é contar algo, podemos dizer que o homem sempre teve o desejo e a necessidade de contar histórias.

Tanto nos folhetinhs quanto nas paredes de pedra de Altamira existem fatos que o narrador quis deixar registrados para a posteridade. Assim, num gesto feito com o corpo, numa fotografia familiar antiga, na letra de uma música, numa crônica, ou numa simples piada, lá estão elementos da história e a tentativa de recriar a realidade.

Uma das formas de narrar é a linguagem escrita. E é sobre esta forma que prentendo me debruçar nas linhas que se seguem. Muitos pensam a gramática normativa da lingua portuguesa como uma corda sobre a qual você TEM que se equilibrar. Qualquer falta de cuidado seu pode fazer balançar a corda. E quanto mais esta corda balança, mais evidente fica o seu desequilíbrio até que, num dado momento, a possível queda se dá. Trazendo esta metáfora para o assunto em questão, podemos dizer que quanto mais esta corda balança ou quanto mais quedas dela vc sofrer, mais inculto, sem instruição e vulgar você poderá ser classificado.

Esse ponto de vista é excludente e preconceituoso. Um exemplo claro disso pode ser observado no texto de nossa Constituição Federal que, mesmo assim, diz que todas as pessoas são iguais perante a lei. Mas esta lei é escrita em uma linguagem que a maioria da população não domina.

Como se já não bastasse os sem terra e os sem teto, por exemplo, esta visão de linguagem escrita escrava da gramatica normativa nos apresenta mais um tipo de brasileiro: o sem língua. Um cidadão não fala ou escreve de forma considerada inculta simplesmente por capricho. Ele não cai da corda bamba acima mencionada só pelo prazer da queda proporcionado pelo aumento dos níveis de adrenalina no sangue ou por vontade de não seguir os padrões. Não existe a o pensamento de que hoje acordei de mau-humor e vou infringir tudo aquilo que consideram a norma culta da lingua portuguesa. De acordo com Marcos Bagno, professor da Universidade de Brasília, conhecido pela sua luta contra a discriminação social por meio da linguagem, não podemos menosprezar quem foge desse rigoroso padrão normativo de linguagem escrita estabelecido. Não devemos transformar este acontecimento em contracultura, na medida em que o Brasil, até mesmo pelo seu tamanho continental, não apresenta apenas uma única cultura, uma única lingua e nem mesmo uma homogeneidade linguística.

Bagno acredita que “o mais leve a se fazer sobre os muitos que não falam ou se expressam como os poucos, seria tornar este fato uma subcultura ou uma das duas culturas lingüísticas brasileiras imperantes: a forma “culta” gramatical e a forma “culta” popular”. Nada melhor, perante todo o quadro apresentado, que desenvolvamos a capacidade de sermos bilingues dentro da nossa própria língua. Creio que isso seja uma das atitudes, dentro de um conjunto maior, dos que buscam construir uma sociedade verdadeiramente democrática, guiada pelo respeito às diferenças e pelo respeito e reconhecimento (lembrando a teoria de Taylor) aos diferentes níveis e formas de acesso aos bens culturais tidos como de prestígio.

Por fim, fecho com a seguinte passagem de Heidegger e Gadamer, presente no texto intutulado Cultura e Linguagem, de Miguel Reale, ex Reitor da USP, presidente do Instituto Brasileiro de Filosofia: a linguagem é o solo da cultura, entendida esta, não apenas como a capacidade de participar de um número cada vez maior de valores intelectuais ou artísticos, mas antropologicamente, como acervo de tudo aquilo que a espécie humana veio acumulando ao longo de sua experiência histórica. Daí poder-se dizer que o ser do homem é o seu dever-ser consubstanciado na linguagem que o tornou capaz de realizar-se como pode e deve fazê-lo. Parece-me essencial essa dupla compreensão do ser humano em seu dever ser através da linguagem”.

Para fins de esclarecimento geral, reafirmo que esta minha forma de pensar se aplica ao caso da gincana, devido a toda a ideologia apresentada pelo projeto. Se eu adotasse outra postura, neste caso, sentiria que eu estaria indo contra toda a proposta do projeto. Esta pensação foi apenas uma provocação para que possamos estudar, pensar e discutir qual será a melhor forma de lidarmos com este assunto que julgo ser tão importante e pertinente às linhas teóricas abordadas pelo CCNM.

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*Sem maiores pretensões e afirmando meu respeito às diversas opiniões.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Um Blog!

Antes de qualquer coisa, acho que vale a pena me apresentar. Meu nome é Fernando e estou estudando pra ser jornalista. Não que, nesses novos tempos, isso seja uma coisa realmente necessária. Na verdade, não é. Mas também não pretendo me estender nesse assunto cabeludo que é a falência do diploma de jornalismo.

Pra dar início às minhas postagens, que vão começar assim-de-supetão, queria tratar da criação de blogs.

Hoje o Rennan me avisou que teríamos um. Fiquei surpreso e gostei da notícia, imaginando pra quando seria o projeto. Surpresa maior foi descobrir que era pra já! O blog já estava montado, todo bonitinho e pronto pra ser postado, comentado, sujeito a todos os tipos de ações “internáuticas” que possam existir.

Mas como um blog novinho-em-folha surge assim, de repente, num intervalo de uma noite e poucas horas?

Lembro-me de quando eu ainda era quase uma criança e tentei me arriscar na Rede. A partir de um site que nem me lembro o nome, tentava criar um página na internet. Não sei também se era um blog, um flog ou algum outro desses nomes, que caem mesmo no esquecimento, soterrados por tantos outros que pipocam a cada fim de tarde.

Meu processo de criação durou semanas... Não sei se pela inexperiência; pelo acesso à internet restrito aos finais-de-semana, em que a taxa era mais barata; se pela dificuldade de obter a combinação perfeita entre o verde-neon e o preto; se pela dificuldade de encontrar o que postar alí ou se porque, naquele tempo, as coisas eram realmente mais difíceis.

O interessante é que fiquei imensamente feliz quando terminei a minha programação. Fui contar, radiante, ao meu pai. Eu havia criado um site (ou algo do gênero)! Ele não acreditou. Não acreditou mesmo! Não deu bola, nem foi ver... Estávamos atrasados porque íamos ao clube e um site, naquele tempo, era uma coisa de peso. Parecia, ao menos, distante demais de um garotinho.

É claro que o “blog” não foi pra frente. Eu não tinha o que postar e ele, ninguém para ler.

Talvez venha daí, desse quase-trauma, a minha surpresa com a criação imediata de um blog. Um espaço múltiplo, possível de se acessar de qualquer parte do mundo, por qualquer pessoas que tenha um computador conectado. Daqui a gente pode mostrar um milhão coisas e conversar com elas, pode fazer até uma revolução! Pode?

Esse espaço quase mágico – quase mítico, quando se é um garotinho –, hoje pode ser criado com pouco mais tempo que um estalar de dedos. Tudo bem que há blogs e blogs e suas diferenças predizem o tempo de criação. Mas o básico pode ser aprendido em uma das milhares de páginas listadas pelo Google quando se procura: como criar um blog. Eu fui procurar. Eu vi! Qualquer um pode ter seu blog, seu espaço de expressão, divagação, de exibicionismo, de contato com o inimaginável. Qualquer um pode produzir informação rápida, seja ela boa ou má.

Daí parece que voltamos aquela questão chata-chata-chata do diploma, da obrigatoriedade, do jornalismo todo. Mas que, como eu disse, não pretendo tratar.