Li esse texto do Fernando Resende essa semana e achei interessante pensarmos sobre:
Ausências na comunicação social e no jornalismo:
A lógica da rua1
O campo dos media configura-se, na sociedade que vive uma cultura pós-industrializada, como um dos mais importantes campos sociais. Ao pensarmos na constituição de um espaço público determinado pelo imbricamento de redes de experiências, tanto sociais como culturais e/ou de outras ordens, reconhecemos a comunicação social, e portanto os seus saberes e as suas práticas formatadas pelos aparatos tecnológicos, como constitutiva de um campo que muito contribui para que as relações sociais, na sociedade contemporânea, sejam, ao mesmo tempo, tecidas e compreendidas.
Na dimensão de um contemporâneo em que as sociabilidades se configuram por vias mediatizadas, a noção de espaço público, como lugar simbólico em que se tecem e se estabelecem as relações sociais, ganha relevos significativos. Tratam-se de fatores que, principalmente por alterarem as relações que as pessoas estabelecem com as noções de espaço e de tempo, reconfiguram os papéis e as pertinências dos vários campos que constituem a sociedade. As relações, que de diretas passam a ser sobrepostas, e nunca substituídas, pelas de circulação mediática, se conformam em um espaço cuja ordem se estabelece a partir de uma correlação de forças. No âmbito do espaço público conflituoso,2 são os vários campos e organizações sociais coexistentes, através dos quais se articulam os saberes e as práticas cotidianas, que se reorganizam, constantemente. Nesse sentido, o avanço tecnológico sofrido pela sociedade que tem se configurado nos últimos 50 anos é um dado preponderante.
É o campo dos media, particularmente em suas perspectivas práticas, um dos grandes responsáveis pelas alterações a que nos aludimos. Principalmente a partir da chegada da televisão, o ato de estar no mundo ganha novas conformações. Não cabe aqui uma apologia à imagem e muito menos uma referência à sua possível preponderância no mundo atual, mas constatar o fato de que o advento da mídia eletrônica muito contribuiu para o encurtamento e o remodelamento dos espaços, das distâncias e dos tempos, cumprindo assim um importante papel tanto na reconfiguração do espaço público contemporâneo como na atenção que se volta para a importância da existência dos meios na sociedade. Primeiro, porque, no espaço público a que nos referimos, outros campos sociais, sejam de ordens políticas, jurídicas, econômicas ou culturais, passam a ter de se articular, de conviver e correlacionar forças, com o campo através do qual se fala, tanto deles como por eles. Depois, porque foi praticamente a reboque da televisão que todos os outros meios de comunicação, nascidos antes ou após o seu advento, ganharam uma relevância fundamental, fator que traz à tona a importância de todo o campo dos media.
Trata-se de um campo, como também o são os outros, que tanto se faz autônomo como dependente. Sua especificidade, entretanto, reside no fato de que a discursividade e a narratividade, além da tecnologia, sejam elementos nodais na sua própria constituição.3 Em outras palavras, ele instaura, ao mesmo tempo em que conforma e redefine, discursos sobre e para a sociedade; ou seja, ele cria e recria práticas sociais discursivas que tanto desejam falar da sociedade como constituir-se enquanto saber acerca desta mesma sociedade. O paradoxo se estabelece quando percebemos que, paralelamente a este processo, ressalta-se sua relativa dependência de outros campos, já que o discurso que ele cria sobrevive, também e fundamentalmente, da existência de outras instituições sociais de caráter estritamente político, econômico, cultural e/ou de qualquer outra ordem. Ou ainda, trata-se de um campo que tanto precisa dialogar com outros organismos da sociedade como também deles falar. Sendo assim, ele formata a sociedade ao mesmo tempo em que viabiliza leituras acerca da sociedade instituída e formatada por outros campos.
Ademais, junte-se a estes aspectos o fato de que trata-se de narrar experiências e modos de vida, calcados em subjetividades que estão insistentemente cravadas na objetividade demandada pela necessária lida com o cotidiano. Ou seja, eles intereferem no status quo e recriam modos de vida, porque lêem e provocam releituras de experiências subjetivas e objetivas e, vale dizer, de forma às vezes tão imperativa que tornam-se o lugar de onde as pessoas retiram o que sabem e o que se dispõem a compreender acerca do cotidiano e da vida. Estes talvez sejam alguns dos fatores mais fundamentais que têm provocado tantos estudos e reflexões acerca da presença da comunicação social na sociedade contemporânea.
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1
Este trabalho foi realizado no âmbito do Programa de Bolsa CES de Curta Duração (Janeiro/2004), no Centro de
Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Portugal, instituição à qual o autor é
profundamente grato.
2
Cf. Miège (1992). O autor trabalha com a noção de conflito entre os diversos atores e campos sociais, como a nova
ordem que rege o espaço público contemporâneo. Para a discussão acerca dos media e do espaço público, o trabalho
de Jürgen Habermas, Mudança estrutural da esfera pública (1986), é de fundamental importância.
3
Ver, nesse sentido, um importante trabalho de Rodrigues (1984). O autor discute a “tríplice componente” que
delimita o campo dos media como instituição social. Outros trabalhos posteriores têm o mérito de discutir as
particularidades a que estas especificidades estão sujeitas, mas o trabalho citado traz a discussão mais geral acerca
do assunto.
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