Preciso confessar que carregava comigo uma série de pré-conceitos (e separo assim pra ficar menos pejorativo ou diminuir o peso da palavra... não que eu mereça).
Esses conceitos prévios dizem respeito a tudo. Aliás, queriam dizer. Foram construídos a partir de um ponto de vista que emerge de um senso comum, alienado, impetuoso. Foram todos destruídos pelo simples contato com a realidade, que me pareceu bem melhor daquilo que eu imaginava.
Estou tratando aqui da Fundação Xuxa Meneghel, do ambiente e comunidade de Pedra de Guaratiba, das crianças auxiliadas pela Fundação.
É a segunda vez que começo esse texto, tentando não me perder em narrações, a fim de fazer aqui um retrato, mesmo que pálido, acerca das minhas impressões, apenas.
Da Fundação, o que pude notar, além do cuidado com que é mantida a instalação física, foi a segurança que envolve as crianças que a frequentam. Um espaço que se estende a partir de uma alameda comprida e cheia de verde, cheia de sagüis e brinquedos, que revela, mais adiante, o espaço de interação, de aprendizado e de formação.
É notável também o carinho e a atenção dedicada às crianças. Aliás, dedicada, dedicação e compreensão das individualidades pareceram ser palavras de ordem.
Pra falar do lugar, de Pedra de Guaratiba, que só fui conhecer melhor no último dia de visita, é preciso tratar de carências e falta de estrutura. De um lugar que parte de uma via longa, que em seu lado mais habitado amontoam-se barracões, sem reboco, sem isso ou aquilo, que vão até sei-lá-onde, costurados por vielazinhas quase-labirinto. De uma região que chega a um mar sujo e que, na maré cheia, ainda conserva o cheiro da lama defunta que cobre o chão.
Pelo que procurei saber, a violência está sim presente e já faz parte da vida de cada um. Já está tão alí que há quem não a perceba. A ponto das crianças falaram de morte como algo quase natural. De tiroteios no carnaval, de gente que só morre porque “vacilou”, mas que, tirando isso, segundo uma das meninas assistidas pela Fundação, até que é tudo muito tranqüilo.
E realmente, tirando isso ou mais alguma coisa, me pareceu um lugar tranqüilo sim. Pacato, pobre e sem nenhum interesse por parte do governo, mas que ainda assim conserva nas pessoas aquilo de ter esperança e de andar sorrindo.
Das crianças não poderia ter tido melhor impressão. Das mais novinhas às mais jovens, tanto os meninos quanto as meninas, todos muitíssimo educados, carinhosos, bem dispostos.
Não sei dizer das suas carências, das dificuldades ou da casa onde vivem, mas ali na Fundação estavam em casa também. Divertiam-se, contavam histórias e comentavam sobre o show da Ivete Sangalo que iria acontecer no sábado à tarde, em Campo Grande – centro comercial mais próximo. Eram crianças como quaisquer outras que não carregavam, pelo menos aparentemente, o peso de morar num lugar tão deprimido pela falta de oportunidade e de assistência.
Acho ainda que vale dizer do clima agradável dali. Faz um sol bonito e de alguma forma é leve, mesmo que salgado pela baía e pela falta de recursos.
De tudo, sem querer me remeter à alguma coisa de Fernando Sabino, fica a certeza de um trabalho que vale a pena, tanto o nosso, do CCNM, quanto o da fundação-porto-seguro. A falta de intervenção e auxílio governamental é superada pela raça e vontade de fazer uma história melhor, mesmo que a custa de iniciativas privadas, sempre muito bem vindas nesses tempos de dinheiros que escorrem por debaixo de tapetes vermelhos no antigo planalto central.
Obs.: A narração, com impressões a mais e outras a menos, ainda há de ser postada, talvez não aqui. Mas isso é pra depois.

Belo exercicio de olhar materializado em palavras!
ResponderExcluirBom ler isso ouvindo CB!