"... Este, não o esqueçamos, era quase incapaz de idéias gerais, platônicas. Não apenas lhe custava compreender que o símbolo genérico cão abarcava tantos indivíduos díspares de diversos tamanhos e diversa forma; perturbava-lhe que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e quatro (visto de frente). Sua própria face no espelho, suas próprias mãos, surpreendiam-no cada vez. Comenta Swift que o imperador de Lilliput discernia o movimento do ponteiro dos minutos; Funes discernia continuamente os avanços tranqüilos da corrupção, das cáries, da fatiga. Notava os progressos da morte, da umidade. Era o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intolerantemente preciso. Babilônia, Londres e Nova York têm preenchido com feroz esplendor a imaginação dos homens; ninguém, em suas torres populosas ou em suas avenidas urgentes, sentira o calor e a pressão de uma realidade tão infatigável como a que dia e noite convergia sobre o infeliz Ireneo, em seu pobre subúrbio sulamericano. Era-llhe muito difícil dormir. Dormir é distrair-se do mundo; Funes, de costas na cama, na sombra, figurava a si mesmo cada rachadura e cada moldura das casas distintas que o redoavam. (Repito que o menos importante das suas lembranças era mais minucioso e mais vivo que nossa percepção de um gozo físico ou de um tormento físico). Em direção ao leste, em um trecho não pavimentado, havia casas novas, desconhecidas. Funes as imaginava negras, compactas, feitas de treva homogênea; nessa direção virava o rosto para dormir. Também era seu costume imaginar-se no fundo do rio, mexido e anulado pela corrente."
Funes, o Memorioso. De Jorge Luis Borges
Para hoje, escolhi postar este belo conto de Jorge Luis Borges, devido, entre as tantas qualidades estilísticas deste texto, à forma através da qual o tema da memória é aqui tratado.
Se no maior das vezes nos deixamos levar pela idéia da memória como algo construtor de nossa identidade - pois é através da repetição das atitudes e da lembrança destas que diariamente nos tornamos quem nós somos - no conto de Borges nos deparamos com uma memória que, por ser tanta, acaba por tomar a identidade de um sujeito, fazendo com que este não se reconheça mais e não reconheça mais aquilo que o cerca. A cada vez que observa um objeto, é como se Funes o observasse pela primeira vez, pois capta, naquele instante singular, detalhes que ninguém mais captaria. Assim, é anulado em sua capacidade de reconhecer e, conta-nos o autor, de conceber uma idéia concreta, de pensar.
Como temos lidado com o tema da memória em algumas de nossas atividades e gincanas no CCNM, pensei talvez ser este conto um contraponto interessante em relação à concepção de memória com a qual trabalhamos. É preciso esquecer para lembrar, nos mostra Borges por trás do tom às vezes fantasioso de seu conto. É preciso ter passado, mas também é preciso ter presente, para que a Mnemosyne não engula nossa identidade.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
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Gostei muito do texto e estou até me perdendo na tentativa de comentá-lo.
ResponderExcluirFelipe Pena, em 'Jornalismo Literário" discute essa mesma paradoxal relação entre memória e esquecimento. Partindo daí, fala de como o passado, ao ser rememorado, faz parte do presente e de como o tempo deixa de ser linear.
Manuel de Barros trata do repetir - "repetir repetir até ficar diferente" -, que toca no ponto do esquecimento a partir de uma sistemática lembrança, gerando novas e novas significações.
As lembranças sobre lembranças vão pipocando e, confesso, estou ficando quase tonto. Parece-me um desses temas de mesa-de-bar, que tornam o assunto "cabeça" e que, longe de serem triviais, absorvem-nos por horas e se perdem no mesmo esquecimento. Que são lembrados e novamente esquecidos sob o efeito da cerveja. E vem a repetição... a diferenciação... e surgem interpretações loucas que, no outro dia, serão postadas em algum blog-twitter-orkut, acompanhadas de algum símbolo de hilariedade, com o único objativo de evitar o esquecimento, de relembrar. O nosso maior esforço.
Também gostei demais da abordagem do tema. Mas gostei ainda mais das estratégias. Beijos
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